Piranesi
Luis Fernando Verissimo
Victor Hugo, um dos seus muitos admiradores, descrevia a obra de Giovanni Battista Piranesi como o produto de uma mente obscura, e foi esse o título que Marguerite Yourcenar deu ao seu ensaio sobre o grande gravurista italiano, A Mente Obscura de Piranesi. Eu andava catando o livro que contém o ensaio da Yourcenar porque Piranesi é uma das minhas cult-figuras, e finalmente o consegui (viva a Amazon). Piranesi (1720 – 1778) reproduziu as ruinas e os monumentos de Roma nas suas gravuras mas deve sua reputação – a classificação que Victor Hugo deu ao seu cérebro – principalmente a duas séries sobre cárceres imaginários, chamadas Invenzioni Caprice de Carceri e Carceri d’invenzione, uma feita dezessete anos depois da outra. A segunda série é uma edição repensada da primeira, publicada quando o artista tinha apenas 22 anos.
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A não ser pelas pinturas negras do Goya, não há nada tão anacrônico e estranho na história da arte quanto estas prisões inventadas de Piranesi. Não eram incomuns, na época, retratos de prédios e monumentos inexistentes, mas nenhum se parecia com os lúgubres espaços interiores imaginados por Piranesi: imensas escadarias desaparecendo no escuro, passagens aéreas levando a nada ou interrompidas por grades, arcos e vãos cuja grandiosidade tem um paradoxal efeito opressivo, com correntes e mal-definidos instrumentos de tortura completando o ambiente de terror, que parece iluminado por um constante e impiedoso sol negro, nas palavras de Yourcenar.
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Piranesi antecipa a fascinação pelo sombrio da literatura gótica do século dezenove e o surrealismo do século vinte nos seus delírios, todos feitos com meticulosa precisão arquitetônica. Yourcenar não tem dúvida que a primeira série de gravuras é fruto de delírio, e especula que a causa era física. Natural de Veneza, o jovem artista teria sucumbido à malária que empestava a Campagna Romana e inventado suas prisões monumentais em estado febril. No seu trabalho posterior, que o transformou num dos gravuristas mais populares do época, não há vestígio da mente obscura que criou os Caprice de Carceri – até o próprio Piranesi, presumivelmente, se dar conta da importância do que tinha feito e produzir a segunda série quase vinte anos depois, desta vez sem a ajuda da febre.
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A tese da autora não é nova. Assim como germes e epidemias influenciaram a história de civilizações, haveria bases patológicas para algumas transformações na arte ou para os estilos pessoais de artistas. O impressionismo pode muito bem ter começado devido a uma miopia não diagnosticada do Monet. Vai ver ele enxergava a catedral de Rouen da maneira que a pintou, inaugurando o movimento, antes de começar a usar óculos. Talvez Modigliani realmente visse as mulheres alongadas daquele jeito. Existe uma anomalia ótica que faz a pessoa ver a imagem estilhaçada: olha aí a origem do cubismo. Picasso tinha a compulsão de maltratar suas mulheres mas como elas eram invariavelmente maiores do que ele, fazia com elas na pintura o que gostaria de fazer com elas de verdade. Etc. etc.
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Delírio ou não, Yourcenar vê nas prisões imaginárias de Piranesi “um dos primeiros e mais misteriosos sintomas daquela obsessão com tortura e encarceramento que, de maneira crescente, possui as mentes dos homens nas últimas décadas do século dezoito. Pensa-se em Sade e nas masmorras da villa florentina em que seu personagem aprisiona suas vítimas – não que Piranesi prenuncie as cruéis manias do autor de Justine tanto quanto imaginaríamos, mas porque Sade e o Piranesi dos Carceri ambos expressam o abuso que é, de alguma maneira, a conclusão inevitável da volição de poder do Barroco”. E lembra que, evidenciando “o quase grotesco contraste entre a visão interior de um poeta e a realidade anedotal da história, escassos trinta anos separam os fantásticos cárceres de Piranesi das prosaicas prisões do Terror” da Revolução Francesa.
Domingo, 31 de julho de 2005.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.