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DIÁRIO DE VIAGEM

Chanel

Martha Medeiros

Coco Chanel foi mais do que apenas uma estilista revolucionária: ela corria atrás de seus objetivos, e seu objetivo era o luxo.

No quarto e último “episódio” da série Diário de Viagem, retorno a Paris para falar de um personagem que me encantou: Mademoiselle Chanel. Tive a sorte de assistir à peça encenada por Marília Pêra (que já está novamente em cartaz em São Paulo) em plena Avenue Montaigne, endereço das prestigiadas grifes internacionais. Plateia lotada aplaudindo vigorosamente uma das nossas maiores artistas, que por sua vez interpretava um dos maiores ícones franceses – foi trés chic.

A peça não é apenas um registro sobre moda. É o registro de uma vida, e é por isso que empolga. Chanel foi mais do que uma estilista revolucionária que libertou o corpo da mulher com vestidos confortáveis e práticos: ela viveu desta mesma forma, sem amarras, sem pudores. Misturou feminilidade com praticidade, sedução com ação: não era mulher de esperar as coisas acontecerem, corria atrás de seus objetivos. E seu objetivo era o luxo. Mas não o luxo comprado a peso de ouro. “Luxo não tem nada a ver com riqueza”, ensinava ela. Luxo, mesmo, é a liberdade, e isso poucos podem bancar, mesmo os que possuem uma robusta conta bancária.

Antes de acumular sabedoria, passou por algumas misérias: uma infância sem família, um grande amor perdido num desastre de automóvel, nenhum filho, e ainda uma perseguição política que a fez auto-exilar-se por 10 anos na Suíça. Ultrapassou todos os obstáculos porque, no íntimo, acreditava que nada era mais importante do que estar viva, e honrou o verbo viver, aliando a ele os verbos criar, ousar, experimentar, amar. Teve um séquito de namorados. E enquanto subia e abaixava bainhas e distribuía alfinetadas – inclusive verbais -, se divertia.

Por um lado, era perseverante, moderna e audaz. Por outro, tirânica com seus empregados, impiedosa com seus concorrentes e escorregadia em entrevistas. O que torna um personagem fascinante é sempre esta combinação de talento com uma certa dose de maquiavelice. Um maquiavelice do bem, necessária para apimentar uma biografia. Eu imaginava Chanel mais sóbria e recatada, mas Marília Pêra, através do excelente texto de Maria Adelaide Amaral, apresentou-nos uma Chanel mais ácida e, talvez por isso mesmo, bem mais charmosa do que a que deu origem ao mito. O próprio Karl Lagerfeld, atual estilista da Maison Chanel, disse que Marília emprestou uma graciosidade, uma elegância e uma energia que a verdadeira Coco não possuía. Alfinetadas. É o mundo da moda.


Domingo, 24 de julho de 2005.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.