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Chuleada

Luis Fernando Verissimo

Um valete de ouro. Só o que eu preciso é de um valete de ouro. O dez, a dama, o rei e o às de ouro já de ouro já estão na minha mão. Joguei fora o oito de paus e pedi uma carta. Agora a outra carta está na minha mão, mas eu ainda não sei qual é. Estou chuleando, devagar. Se for outra carta do mesmo naipe, ouro, tenho um flush. Se for o valete de ouro tenho um royal straight flush. Um royal straight flush! Uma mão imbatível. Aí jogo tudo o que tenho. Todas as minhas fichas. Espera aí, minhas fichas já estão todas no meio da mesa. Tudo o que tenho no bolso. Na carteira. No banco. Faço um cheque. Jogo o carro. Jogo a casa. Não, a casa não é minha. Jogo o relógio do velho. Tudo. E ganho uma fortuna. A mesa está boa. Como não ganhei nada a noite toda, ninguém espera que eu ganhe desta vez, pedindo só uma carta. Ainda mais com um royal straight flush com o às em cima, a mão mais rara do pôquer. Vi que outros dois na mesa pediram só uma carta. Ou têm dois pares, e uma perspectiva de full-hand, ou uma possibilidade de sequência. Meu royal straight flush bate os dois. Meu royal straight flush com o às em cima bate qualquer outro jogo na mesa. Só preciso de um valete de ouro. Um valete de ouro!

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Devagar, devagar. Palavra curiosa, “chulear”. De onde será que vem? Parece que tem algo a ver com costura, bordado, essas coisas. Depois do jogo vou olhar no dicionário. O que é que eu estou pensando? Depois do jogo, a última coisa que farei será olhar um dicionário. Se entrar o valete de ouro, vou festejar. Comprar champanhe. Telefonar para a Rita e dizer “Prepara o enxoval!”. Coitada da Ritinha. Há anos ela espera que se resolva o meu caso com a Caixa para gente poder casar. Não tive coragem de contar pra ela que o caso já se resolveu, contra mim. Mas agora vamos casar. Se eu ganhar esta parada, vamos casar. Se entrou o valete de ouro... E se não entrou? Já joguei todas as minhas fichas. Vou ter que sair da mesa. Vou pra casa. Vou me entregar. Vou concluir que sou um desgraçado, mesmo. Que nunca tive sorte, que não mereço viver. Está aí, vou me matar. Se esta carta não for o valete de ouro vou me matar. Mas tem que ser um valete de ouro. Deus não me traria tão perto da fortuna, pela primeira vez na vida, para no fim me negar um simples valete de ouro.

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Deus. Devo apelar a Deus? Não seria honesto. Há anos não rezo, e nunca acreditei muito n’Ele. Poderia parecer oportunismo. Eu só peço um valete de ouro, Deus. Nunca pedi nada, agora pelo um valete de ouro. Se esta carta que estou chuleando for um valete de ouro, prometo sair daqui e entrar na igreja mais próxima, de joelhos, e depositar minha alma aos seus pés. Minha alma por um valete de ouro. Agora entendo o destino que me preparaste, Senhor. Minha vida inteira de pouca sorte foi a preparação para este momento. Foi um estratagema, foi tática, agora eu sei. Todos na mesa me consideram um azarado, alguém que nunca na sua vida teria um royal straight flush nas mãos, não acreditarão em mim e pagarão para ver. E eu levarei o seu dinheiro. Gênio, Deus. Obrigado.

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É isso, é isso. Minha vida até aqui foi o prólogo deste instante. O que vem depois depende desta carta. Estou vendo um pontinho vermelho. Depois vem a felicidade, o casamento com a Rita, filhos, talvez bons dividendos do que sobrar dos ganhos desta noite, que certamente aplicarei com critérios. Nunca mais jogarei pôquer, Deus ganhará uma alma devota e a economia nacional ganhará um consumidor e um entusiasta. Quem pode dizer que um dos nossos filhos, meus e da Ritinha, não será o descobridor da cura do câncer ou o político que o Brasil precisa para resolver seus problemas? Ou que eu mesmo não estou destinado a fazer alguma coisa importante pela humanidade, se esta carta for o valete de ouro? Vermelho é copas ou é ouro? Devagar, devagar. Se não for o valete de ouro, o que vem depois é a ruina e morte. O mundo será privado de tudo que eu e minha família poderíamos lhe dar, e a Ritinha será privada de um marido. Deus: tudo contigo.


Domingo, 24 de julho de 2005.



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