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DIÁRIO DE VIAGEM

Caminhadas

Martha Medeiros

O livro é best-seller em vários países, inclusive no Brasil: chama-se As mulheres francesas não engordam, de Mireille Guiliano. Não li. Não foi preciso. Descobri por que as mulheres francesas não engordam. Acabei de voltar de Paris, onde comi muito pão, me fartei de queijos amarelos e gordurosos, tomei litros de vinho e, como era de se esperar, emagreci. O segredo é simples e antigo como andar pra frente.

As francesas não engordam porque caminham. Vão para o trabalho a pé. Atravessam pontes, bairros, a cidade inteira caminhando. Se resolverem ir de metrô, caminham até a estação mais próxima e, uma vez lá embaixo, caminham para encontrar a linha que desejam: cada subterrâneo é uma cidade à parte, há corredores infinitos, haja sola de sapato.

As francesas que não caminham andam de bicicleta. E as que não caminham nem andam de bicicleta não merecem ter nascido onde nasceram, porque não há exercício mais charmoso do que flanar pelas ruas de Paris, onde não há buracos, assaltos e muito menos tédio. Paris é, de fato, uma festa. Que acerto de definição do nosso amigo Hemingway.

Tem mais: Paris, além de linda, é bastante plana. As ladeiras, poucas, servem para tonificar os músculos das coxas. As danadas são magras e ainda podem usar minissaia.

A troco de que as francesas engordariam? Por causa de crepes, omeletes, batatas? Elas regalam-se com o que é bom (sem exagero, porque são francesas, mas não são doidas) e vão queimar calorias em praças, alamedas, escadarias, totalmente direcionadas para a busca do prazer, sempre atrás dele, não o perdendo de vista jamais. O que engorda é dieta: privar-se de um sabor, se alimentar de culpa e amargura, olhar em volta e só enxergar o que é feio e triste. Isso sim é de jogar qualquer um na cama e, uma vez inativo, expandir para os lados.

Estou romantizando, lógico, mas faz algum sentido. É mais fácil não engordar quando se tem o estímulo para o bem viver, que inclui comida e bebida de verdade (e não junkie food) e quando fazemos de cada trajetória diária um passeio. Mexer-se. Deslocar-se. Contemplar a vida bem longe das telas de tevê. Existir da rua pra fora, onde o sol recepciona os moradores na cidade que é deles. Aliás, nossa, porque também temos uma, e ela não é nada desprezível. É bem verdade que nosso arroio Dilúvio não é exatamente um rio Sena. Plana também não somos, e segura, foi-se o tempo. Mas temos nossas belezas, basta que a gente vá ao encontro delas em vez de dar ouvidos aos programas de televisão que ordenam: fique em casa, atire-se no sofá, isso é que é savoir vivre!

Caso não tenha ficado claro, as francesas não engordam porque comem sem culpa (prazer não é pecado) e, depois das refeições, sempre terão Paris. Já nós, voilá, sempre teremos uma esteira.


Domingo, 17 de julho de 2005.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.