Taxistas
Martha Medeiros
Cinco dias no rio e fiz mestrado e doutorado em vida mundana andando a bordo de táxis
Quando é que ando de táxi em Porto Alegre? Perto de nunca. Mas ao sair da cidade, táxi passa a ser o meu meio de transporte. Cinco dias no Rio e fiz mestrado e doutorado em vida mundana através dos motoristas.
O primeiro avisa que gostaria de ter sido sociólogo. De Ipanema a São Gonçalo explicou como surgem as favelas, como se expandem. Contou que os operários se deslocam do subúrbio para a zona sul para trabalhar na construção civil, erguendo condomínios de luxo. Fica caro voltar pra casa, então resolvem construir um barrado ali por perto, clandestino. Aí chamam a família, mais tarde fazem um puxadinho, e estão instalados. Tudo gente honesta que acaba virando refém de um malandro qualquer que se declara o dono do morro através do poder concedido pelo tráfico.
Num outro táxi, um cantor frustrado. Puxou um Cartola, um Bezerra da Silva, à capela, no entardecer da cidade, o sol se pondo atrás do morro Dois Irmão, lindo, memorável. Não tinha toca-fitas no carro. Rádio, só para ouvir notícias. Quem canta é ele, o motorista sem nome, sem gravadora, retido apenas na memória dos seus sortudos passageiros.
Resolvi ir a Niterói, corrida longa, pra conhecer o Museu de Arte Contemporânea projetado por Oscar Niemayer, mas antes de deparar com aquela obra-prima da arquitetura (todos chamam de disco voador, mas a intenção era sugerir uma flor – que ninguém, além de Niemayer, viu), o motorista relata seu defeito maior: “Sou um carioca muquirana”. O que seria tal coisa? “Não tenho coragem de andar no bondinho do Pão de Açúcar, nunca subi até o Corcovado, moro perto da Lagoa e nunca coloquei os pés perto da sua margem, e esta você não vai acreditar: não conheço o Maracanã e sou flamenguista”. Muquirana. Claro que não acreditei.
Do Leblon ao Leme, acenei para um táxi que fez uma manobra suicida para me pegar. Quase acidente. Por um triz. Imprudência dele. Mas que culpa, o quê: “A senhora viu a kombi atrás de mim? Maluco! Freou em cima. Vou dar um esporro assim que alinhar com ele no sinal”. Alinhamos. Kombi com logotipo da Rocinha na porta. “Melhor não, vão me pegar na madrugada”. Ufa. Eu seria cúmplice, testemunha ou vítima simplesmente por estar no banco de trás. Em qualquer dos casos, uma enrascada.
De Copacabana a Ipanema, entramos num táxi, eu, meu marido e nossas filhas. O motorista logo engatou uma conversa sobre a importância da família. Contou um episódio sobre a dele: certo dia foi almoçar com a irmã, que mora na favela, e chegando lá encontrou-a com um olho roxo. “Quem fez isso?”, perguntou irritado. Ela dedurou: havia sido o marido. “Onde o canalha está agora?”. Ela disse que estava bebendo no bar. Nosso super-herói correu pra lá. Ao chegar, descobriu que era uma boca de fumo, havia um cara com um fuzil guardando a porta: “Onde é que você pensa que vai, mano?” “Sou irmão da Maria, vim pegar o marido dela. Vou bater bastante. Talvez mate. Questão de honra”. A passagem foi liberada e o taxista quebrou três ou quatro costelas do cunhado, arrebentou-lhe os olhos, mas não matou. “Desta vez, só dei um susto. Quero ver ele tocar na minha irmã de novo. Família é troço sério, doutor”.
Rente a car? Nem pense. Ande de táxi e conheça o Brasil.
Domingo, 31 de julho de 2005.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.