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Luis Fernando Verissimo

- Você quer?

- Se você quiser...

- Como, se eu quiser? Você quer ou não quer?

- Se você quiser eu quero.

- Se eu não quisesse não teria perguntado.

- Então você quer?

- Quero.

- Então tá.

- Como, “tá”?

- Tá. Está bem. Sim. Vamos.

- “Tá”... Que coisa triste. A que ponto chegamos. Francamente: “tá”?

- Pedro Henrique, você não vai fazer um drama só porque...

- Não, não. Tudo bem. Eu acho perfeito. Assim termina um grande amor. Não com uma explosão, não com um suspiro. Com um “tá”.

- Pedro Henrique...

- É perfeito. Curto, preciso e definitivo. “Tá”. Como um ponto final. “Tá”, ponto. Que vida conjugal pode existir depois de um “tá”? Nenhuma. Boa noite.

- Sabe o que que eu acho, Pedro Henrique? Acho que você também não estava a fim e está usando um pretexto para...

- Ah, então você não estava a fim? O “tá”, além de tudo, era mentiroso?

- Não desconversa, Pedro Henrique. Você é que estava louco para ir dormir mas decidiu que, já que fazia tanto tempo, tinha a obrigação de perguntar se eu queria. Não era vontade, era descargo de consciência.

- E já me arrependi. Se era para ouvir um “tá”, melhor não ter perguntado.

- Confesse. Você não sente mais nada por mim.

- Não é verdade.

- Não faz tanto tempo assim, você nem teria perguntado.

- Ah, desculpe a boa educação. Você preferia que eu atacasse você sem avisar? Pimba, sem dizer nada?

- Sem dizer nada, não, Pedro Henrique. Dizendo tudo o que você costumava dizer no meu ouvido, antes do pimba, lembra? Você nem se lembra.

- Lembro. E lembro de muito mais. Lembro de quando você é que tomava a iniciativa. Coisa que não acontece desde, sei lá. Desde o governo Sarney.

- O Sarney não.

- O Collor então.

- Não tomava a iniciativa para não ser repelida, porque sabia que você não me amava mais.

- Que injustiça. Que injustiça! Eu nunca deixei de amar você. Não sou mais o mesmo, reconheço. Não digo mais coisas no seu ouvido. O tempo passa, que diabo. Ninguém é mais o mesmo. Nem o Agnaldo Rayol, que não envelhece, mas aposto que não diz mais o que dizia. Nós todos mudamos com o tempo. Mas isso não quer dizer que eu ame você menos.

- Tá certo...

- Jurema, você, pra mim, é uma semideusa!

- “Semi”, Pedro Henrique?!

- Hein?

- Você disse “semideusa”.

- Bom...

- Antigamente era uma deusa.

- É o tempo, Jurema. Nós todos nos desgastamos um pouco.

- Quer saber de uma coisa, Pedro Henrique? Boa noite.

- Tá.

SANTOS

O lançamento do novo filme do Silvio Tendler sobre o Milton Santos me lembrou uma história contada pelo Jaguar sobre o grande geógrafo negro, um dos intelectuais brasileiros mais conhecidos no Exterior - e pouco conhecido aqui.

O Jaguar entrou numa livraria para comprar um livro dele e foi dirigido para a seção de livros de esporte. Lá certamente encontraria a autobiografia do Nilton Santos, glória botafoguense.

Nilton Santos não, disse Jaguar. Milton Santos.

- Quem?

Por acaso, Jaguar tinha uma revista com um foto do geógrafo, que acabara de morrer.

- Este aqui.

Depois de examinar a foto, o funcionário da livraria comentou:

- Mas esse não é o Nilton Santos.

- Claro que não é – disse o Jaguar.

- É o Djalma Santos.

O filme de Tendler deve ajudar o Brasil a desfazer a confusão.


Domingo, 26 de agosto de 2007.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.