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Impersonals

Martha Medeiros

As coisas parecem que mudam, mas apenas trocam de nome. A febre dos “personals”, por exemplo, é um desses casos. “Personal” nada mais é do que alguém que presta um serviço particular, o que não é exatamente uma novidade. A novidade, nada boa, aliás, é que quanto mais “personals” você tem, mais da bandeira sobre a impessoalidade que está tomando conta da sua vida.

Antes, o máximo que tínhamos era um professor particular, que dava um providencial S.O.S. antes das provas. Se o aluno não estava conseguindo se concentrar em sala de aula, o personal teacher se encarregava de fazer o moleque prestar atenção e aprender. Até hoje, são requisitadíssimos e cada vez mais necessários.

Antigas também são as personal girlfriends. Atendem por hora, no local que você quiser, com o nome que você escolher. Os personal boyfriends também não estão se queixando de falta de serviço.

Os médicos de família (personal doctor) hoje são mais raros, mas as diaristas (personal Marinete) estão com a agenda cheia.

Sempre houve personals para casos de emergência.

Só que a coisa se expandiu. Agora você pode ter personal pra o que bem entender. Um personal chef de cuisine, para fazer jantares saborosos para seus amigos. Um personal trainer para acompanha-la nas caminhadas matinais. Um personal driver – ou mesmo um personal taxi driver – para evitar que você enfrente o trânsito no volante. Você pode ter um personal ghost writer para escrever sua biografia, um personal stylist para escolher as roupas que você deve usar, um personal hairdresser, que faz sua escova em casa. Um personal passeador de cachorros, um personal baixador de músicas de MP3, um personal tradutor de abreviaturas virtuais. Você pode ter um personal everything.

Dá a impressão que sua vida ficou mais chique, não?

Na verdade, nossas vidas estão mais pobres. Como o índice de desemprego é alto, muita gente tem que se virar inventando serviços informais e atendendo a domicílio. Como os índices de segurança pública são baixos, preferimos nos trancafiar em casa a buscar a vida na rua. Como as pessoas estão cada vez menos dispostas a se relacionarem coletivamente, aumenta o mercado do “afeto” particular. Como está cada vez mais difícil conseguir algo de graça, paga-se por tudo, inclusive amizade e amor.

Não é de hoje que temos personal pizzaria, personal farmácia, personal cinema: basta ter um telefone (personal cellphone). É o mundo encantado das tele entregas, que tanto facilitam nossa vida.

O problema é que a gente não sossega, não sabe quando parar, quer sempre algo mais, e aí começam os exageros. Muita gente tem dificuldade de perceber o momento em que uma facilidade começa a se transformar em dependência e aleijamento, e em perceber que o que era para ser pessoal começa a se transformar em solidão.


Domingo, 26 de agosto de 2007.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.