Extraclasse
Cláudio Moreno
A SORTE É que a ortografia é a única legislação absolutamente democrática que temos por aqui
Meu velho amigo Carlos Alberto Gianotti, companheiro de armas no exército das letras, anda irritado com a nossa Academia – e com justiça. Ele sempre escreveu extraclasse como manda o figurino – como uma palavra só, sem hífen entre os dois elementos ali presentes. Assim era antes do Acordo, assim continua depois. Alguém, no entanto, contestou essa grafia, e meu amigo, que não bota o pé em galho verde, foi correndo abrir o dicionário para encerrar ali mesmo a disputa. Como diria Nelson Rodrigues, foi batata: lá estava a palavra no Houaiss, exatamente como pensava. Por descargo de consciência, porém, resolveu consultar também o VOLP (o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da ABL). Resultado: nada! Nadinha!
Inconformado com a ausência de extraclasse no VOLP, resolveu escrever para a seção de dúvidas da ABL reclamando da lacuna. Foi como pregar aos peixes, pois o responsável pelo setor limitou-se a informar – como se fosse novidade! – que nem todas as palavras e expressões da língua portuguesa constam no Vocabulário. Meu amigo não precisava que um boi-corneta viesse lhe dizer o óbvio, mas sim que explicasse por que não incluir uma palavra tão corriqueira como essa (afinal, o Google registra mais de 350.000 ocorrências, o que não é pouco).
Ele sabe tão bem quanto eu que mesmo o Houaiss, o mais completo de nossos dicionários, contém apenas um terço dos vocábulos que usamos. Alguns ficam de fora por ser modernos demais; outros, por simples falta de espaço, o que obriga o dicionarista a fazer uma seleção impiedosa. Em vocábulos em que intervém o extra-, então, há centenas de combinações não registradas, pois este prefixo é versátil como um curinga. Para ficar na letra C, extraclasse, extraconjugal, extracelular e extracraniana estão no Houaiss – mas não vejo por lá formações possíveis como extracomunitário, extracorporal, extracontábil, extraconselho, extracontextual, todas elas palavras que me parecem de boa cepa.
A sorte é que a ortografia é a única legislação absolutamente democrática que temos por estas bandas. Ali impera o princípio da isonomia: o que vale para um realmente vale para outro. Se homem e homens, por exemplo, não têm acento, é impossível que item ou itens venham a ter. Se tenho dúvida sobre a grafia de extracontábil, vou ao dicionário (onde o termo não está) e encontro extraconjugal. Ora, como não existe a hipótese de que um desses vocábulos sofra um tratamento diferente do outro, a resposta já está dada, mesmo de forma indireta.
Para encerrar, tenho o prazer de comunicar aos que me acompanham nesta coluna que já está no ar o site www.portuguesaovivo.com.br, contendo vários cursos de Português – todos ministrados por este seu criado – destinados a quem se prepara para concursos ou para quem simplesmente deseja atualizar e aprimorar seus conhecimentos.
Sábado, 15 de agosto de 2015.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.