Avôs
Cláudio Moreno
ESSA OPÇÃO PELO "O" aberto me parece típica daqueles plurais em que o timbre da vogal muda
O leitor Delcio B, desta capital, resolveu matar dois coelhos numa só cajadada, fazendo duas perguntas de uma só vez: "A primeira é algo que me intriga. E a respeito da flexão de avô + avó = avós. Ora, se a regra diz que feminino + masculino = plural masculino (que vem a ser o neutro), o que explica este caso? A segunda questão é sobre um nome próprio que as pessoas pronunciam de um jeito que me causa mal-estar. Na Itália, a pronúncia do nome Paola faz recair o acento tónico no "a" - /páu-la/ -, como um ditongo decrescente. No Brasil, no entanto, consagrou-se a pronúncia com a tónica no "o" /paôla/ transformando o ditongo num hiato. Professor, há algum amparo para esta pronúncia que considero arrevesada?".
Prezado Delcio: vamos por partes. O plural de avô é avôs, e não preciso dizer que o de avó é, naturalmente, avós: "Minhas duas avós estão vivas, mas meus avôs já faleceram". Por que - essa é a tua dúvida - a língua portuguesa optou por avós para designar o plural envolvendo ambos os gêneros (o meu avô e minha avó)? Por que não seguimos aqui o princípio de usar, nesse caso, a forma inclusiva, neutra, que é o plural masculino (os brasileiros, os candidatos)?
Posso estar enganado, mas essa opção pelo "o" aberto me parece típica daqueles plurais (não são muitos) em que o timbre da vogal muda: porco, porca; morno, morna, etc. Ora, o pessoal que estuda esses plurais metafónicos há muito percebeu que há uma correlação estrita entre o timbre do feminino com o timbre do plural. Em outras palavras: se o "o" for aberto no feminino, também será no plural: porco, porca (ó), porcos (ó); morno, morna (ó), mornos (ó). se, no entanto, o "o" for fechado, assim vai permanecer: cachorro, cachorra (ô), cachorros (ô); raposo, raposa (ô), raposos (ô). Seguindo este princípio, avô + avó só poderia dar avós.
Quanto ao nome Paola, basta assistir a qualquer filme italiano para ver que aquele "o" está representando, no ditongo, o mesmo som que o nosso "u" (é uma semivogal). Isso quer dizer que, na prática, um italiano vai pronunciar Paola da mesma maneira que um brasileiro vai pronunciar Paula. Acontece que a forma italiana do nome passou a ser pronunciada no Brasil numa leitura ortográfica: /pa-ó-la/, como se fosse um hiato e, o que é pior, com o "o" tónico e fechado. É a sina dos nomes estrangeiros, por aqui: dizemos Marilyn /monrói/, e não /mônrou/; calça /lévis/, e não /liváis/ (a transcrição fonética é meio à moda galega, mas serve para o meu propósito). Se isso te consola, os franceses não mantêm a pronúncia original de nenhum nome estrangeiro e transformam tudo em oxítona, como praxe: /obamá/ , /paulô coelhó/ (desculpa o exemplo), /ronaldô/, e por aí vai a valsa. Na França, a Paola seria ,/pau-lá/ e a Paula seria /polá/. Que tal?
Um recado final: para aqueles que quiserem saber como são minhas aulas, basta acessar portuguesaovivo.com.br, onde poderão me ver em carne e osso.
Sábado, 26 de setembro de 2015.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.