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avôs
sorete

Cláudio Moreno

O leitor há de concordar comigo: é próprio da natureza humana enxergar semelhanças entre coisas que nem remotamente estão relacionadas: uma mancha de óleo que reproduz o contorno da Mona Lisa, um morro que lembra a silhueta de um gigante adormecido, uma nuvem que desfila, no azul do céu, uma preguiçosa manada de hipopótamos. Todas essas similaridades são guloseimas que agradam à nossa mente racional, que se aproveita dessas coincidências para fazer de conta, por alguns momentos (há quem as leve a sério...), que a realidade que nos cerca obedece a uma organização invisível. Chamamos de pareidolia (do Grego para, "falso", e eidôlon, “forma, aparência") esse impulso que nos leva a enxergar rostos na superfície de Marte; transposta para as palavras, esta mesma tendência produz as falsas etimologias, que tantas vezes já frequentaram esta coluna.

Pessoas que dominam vários idiomas sabem que existem palavras que são praticamente idênticas em duas línguas diferentes, sem que nada sugira que tenha havido a transmissão de uma para a outra: nosso polvo nada tem a ver com o polvo do Espanhol (“pó"), nosso grave nada tem a ver com o grave do Inglês ("túmulo"), nem o pain do Inglês ("dor") tem alguma relação com o pain do Francês ("pão"). Algumas escolas linguísticas do séc. 19 caíram nessa armadilha, obrigando seus pobres seguidores a verdadeiras ginásticas etimológicas para explicar o inexplicável. Um exemplo bem próximo de nós foi o simpático Apolinário Porto Alegre, que recolheu, no seu Popularium Sul-Rio-Grandense, um valiosíssimo material da contribuição indígena para nosso léxico, mas não escapou de cometer algumas dessas etimologias artificiais, feitas a golpes de marreta.

É o caso de mameluco, vocábulo usado para designar o filho de índio com branco, reaproveitamento de um termo antigo, como ensina Houaiss, proveniente do Árabe mamlúk, "escravo ou soldado das milícias turco-egípcias que guardavam o sultão". O bom Apolinário, contudo, que tinha botado na cabeça que era um étimo indígena, veio com uma invenção das dúzias: formou-se aqui um vocábulo autóctone para designar este tipo de mestiço, mas foi absorvido pelo outro, mais antigo, que os europeus já conheciam: "(mameluco vem) de membiruca, composto de membira, 'filho', e uca, significando 'separado, distinto', por não ser da raça primitiva.Com a queda do B ficou memiruca, que os portugueses, por semelhança de palavra já existente na língua, fizeram mameluco". Que tal essa? Parece aquela solução brilhante para a velhíssima discussão sobre ser ou não Shakespeare o autor de suas obras: “as obras de Shakespeare não foram escritas por ele, mas por um autor desconhecido que tinha o mesmo nome”...

Bem, perguntará meu benévolo leitor, e o que tem a "ver com tudo isso o suspeitíssimo sorete do título? Pedindo desculpas aos leitores mais sensíveis, informo, como duvidosa utilidade pública, que a melhor definição do termo seria a mesma que o dicionário da Real Academia Espanhola dá para mojón (equivalente ao nosso expressivo mas impublicável c*g*lhão): “porção compacta de excremento humano que se expele de uma só vez" (é impossível não admirar a elegância e a precisão com que esses acadêmicos espanhóis se desincumbiram de tão ingrata tarefa!).

Esta palavra sempre fez parte do meu vocabulário escatológico, e eu não a mencionaria aqui se não fosse por um (in)feliz acaso: ao vê-la empregada numa frase de Jorge Luis Borges, meu autor do coração, lembrei que tinha em casa (empréstimo de meu amigo Ruben Daniel Castiglioni, que aguarda, pacientemente, sua devolução) um livrinho de autor uruguaio que explica a origem de vários termos da linguagem platina, muitos deles compartilhados por nós outros, os gaúchos brasileiros. Aqui a tragédia se repete: enquanto Apolinário tenta justificar a origem indígena de mameluco, este bravo filólogo amador vai buscar no Grego (!) a fonte de termos regionais como mulita, patacão, catinga, pulperia, chiripá e, é claro, o nosso sorete campeiro. Segundo ele, a palavra vem do Grego sorites, "pilha, monte, montão" (a mesma usada para designar um dos mais famosos silogismos clássicos), e era usada aqui como um substituto eufémico para os termos grosseiros usados para o mesmo fim. Reproduzo seu insuperável argumento: “Vejam a delicadeza do gaúcho, que, em vez de dizer que ali tinha um monte de m*rda, preferia dizer que ali tinha um sorites. Quando todo o mundo soube do que se tratava, deixou de ser eufemismo”... Ah, e de onde vem, então, esta magnífica palavra? Honestamente, ninguém sabe. Quiçá do antigo celta...


Sábado, 21 de janeiro de 2012.



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