Vereditos
Cláudio Moreno
1) Blitzes - Há pouco mais de duas semanas, um aluno me questionou sobre a manchete que encontrou em jornal de grande circulação no país: "PM faz blitze sucessivas na favela". "Confio no meu ouvido, professor, e ele me diz que aqui está faltando um S. O senhor não acha?". Acho, e sempre achei - e ia começar a apresentar meus argumentos quando um segundo aluno, tão rápido no gatilho quanto interessado na matéria, interveio, triunfante: "Mas a palavra já está no plural! O jornal está correto! Blitze, em Alemão, é plural e masculino: um blitz, dois blitze". Os dois olharam para mim, esperando o meu veredito (para os que preferem veredicto, forma também correta, lembro que não existe letra muda no sistema brasileiro; aqui na Pindorama, como no jogo do bicho, vale o que está escrito: quem escreve aquele C deve também pronunciá-lo) - como eu dizia, olharam para mim, esperando o veredito, e eu então me senti personagem de uma daquelas edificantes histórias orientais, um verdadeiro Confúcio do pampa, porque pude me ouvir respondendo: "Saibam vocês que ambos estão cobertos de razão”.
Tem razão aquele que aponta a origem alemã do vocábulo. Blitz significa "relâmpago", mas aqui está sendo usado como parte da expressão Blitzkrieg ("guerra relâmpago"), conceito tático-militar que Hitler tornou tristemente famoso, e que meu fiel Oxford English Dictionary define como "ataque ou ofensiva desfechada subitamente, com grande violência, com o objetivo de reduzir imediatamente as defesas". Os ingleses começaram a usar este termo nos anos 40, quando Londres vivia sob o constante fogo da Luftwaffe; no Brasil, há mais de trinta anos ele é usado pela nossa imprensa para designar as batidas que a polícia faz de surpresa, geralmente com efetivo e armamento reforçados. Pelo sistema morfológico do Alemão, o plural do nominativo é blitze.
Por outro lado, também tem razão aquele que sugere que o plural blitzes calharia bem melhor a nossos olhos e ouvidos. Afinal, uma das grandes vantagens do Português é o princípio básico (e extremamente salutar) que rege o sistema de absorção de vocábulos estrangeiros: qualquer palavra que entra em nossa língua deve acompanhar o comportamento das palavras nativas, assumindo os traços fonológicos, morfológicos e ortográficos a que estamos habituados. As estranhíssimas bazooka, maillot e gnocchi há muito circulam por aqui transformadas em bazuca, maiô e nhoque - o que é bom para os brasileiros, que assim não são obrigados a decifrar grafias exóticas, e para as próprias palavras, que podem agora andar por aí alegremente, sem temer o olho sinistro e acusador dos fascistas do idioma.
Como eu disse, ambos têm razão: blitz realmente é uma palavra estrangeira, que, na língua de origem, tem o plural blitze - mas, de tão usada que é, já deveria ter sofrido a nacionalização definitiva, assumindo o plural blitzes, como gizes ou narizes. Não interessa para nós o comportamento deste vocábulo no Alemão; aqui ele vai dançar conforme nossa música. Pouco se nós dá que enveloppe no Francês, seja feminino; aqui ele virou masculino, e pronto. E não importa que, no Italiano, raviolo e gnoccho sejam o singular e ravioli e gnocchi sejam o plural; os dois pratos atravessaram o Atlântico e viraram ravióli (plural raviólis) e nhoque (plural nhoques). Por isso, se blitz é masculino na terra de Goethe, aqui se tornou feminino, num processo totalmente inconsciente dos falantes, certamente influenciados por alguma característica sonora do vocábulo. Se a imprensa aderir à forma modernizada, estou certo de que poucos haverão de reclamar, pois estaremos, como se diz, passando a mão no sentido certo do pelo do gato.
2) Crase - Num restaurante da capital, os ocupantes da mesa ao lado, mais interessados na bebida que na comida, discutem se filé a pé leva ou não leva acento de crase. Estão naquele "leva", "não leva", quando um deles me reconhece e me cumprimenta. "Pronto", pensei, "sobrou para mim". E não deu outra, porque lá veio a consulta: "Professor, aprendi com o senhor que filé à Osvaldo Aranha leva acento porque se subentende à moda, e estou tendo aqui um trabalhão para provar para eles que filé a pé não é a mesma coisa; se não tem moda, não tem crase. Qual é o seu veredito?". "Você está certo, certíssimo", respondi. “O filé a pé, assim como o filé a cavalo, não são pratos batizados em homenagem a alguma celebridade, como o filé à Chateaubriand". Meu ex-aluno comemora ruidosamente sua vitória moral, e já estou sentindo uma ponta de remorso por tê-lo subestimado em seu tempo de estudante quando ele, para tripudiar ainda mais sobre os amigos, acrescenta: "E filé a cebolado também não tem, não é?". Como dizia o Millôr, pano rápido!
Sábado, 19 de novembro de 2011.
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