Turquesa
Cláudio Moreno
No dia 24, à noitinha, duas de minhas filhas ligam para desejar um Feliz Natal. Estão longe, muito longe, na Turquia, perto do lugar onde um dia - é Homero quem nos conta - ardeu a cidade de tetos dourados, a Troia de Príamo e Heitor. A ligação é breve - elas é que estão pagando -, mas as notícias são muitas. Falam sobre a beleza antiga de Istambul, o crepúsculo incomparável sobre o Bósforo, a magnífica mesquita azul de seis minaretes, os cheiros e sabores do Oriente, que visitam pela primeira vez. Neva pesadamente sobre a Turquia, e contam que sobrevoaram a Capadócia, também coberta de neve, num balão digno de Júlio Verne. Antes de desligar, a mais nova, que precisa escrever um e-mail profissional, nos trinques, faz consulta relâmpago: "Ano novo leva hífen?". Sei que ela gostaria de uma resposta fast-food, mas como o caso requer alguma explicação despeço-me com a promessa de enviar, em seguida, um e-mail esclarecedor.
Por escrito, como verá o leitor, fica mais fácil fazer as distinções necessárias. Quando desejo um "feliz ano novo" a alguém, estou fazendo votos de que ele seja feliz nos 365 dias do próximo ano; temos aqui simplesmente um sintagma formado de um substantivo e um adjetivo, vocábulos que, como acontece em nosso idioma, podem mudar de posição (“um ano novo cheio de realizações” = "um novo ano cheio de realizações”). Caso bem diverso é "Ano-Novo", com maiúsculas (opcionais) e hífen (obrigatório, o que assinala, como todos nós sabemos, um substantivo composto); agora estamos falando de uma das festas mais populares do Brasil, junto com o Natal e a Páscoa. Aqui se trata especificamente dos festejos que ocorrem na noite de 31 de dezembro para comemorar a passagem de ano. Dizer que “passei o Ano-Novo com meus filhos" significa que passamos juntos aquilo que também chamamos de "noite do Ano Bom” ou, à francesa, de réveillon. É por isso que posso falar em "véspera do Ano-Novo", "noite do Ano-Novo", “ceia do Ano-Novo”, "no Ano-Novo devemos (os homens, ao menos - é o que dizem!) usar cueca amarela”, e coisas assim.
Enquanto elas exploram a geografia, eu fico aqui com as palavras; vários comentários me ocorreram durante nossa conversa, mas preferi deixá-los para janeiro, quando estiverem de volta. Como filhas de peixe que são, tenho certeza de que gostarão de acrescentar lembranças da viagem alguns detalhes interessantes sobre os cenários que visitaram. O PRIMEIRO é sobre cores: não é por acaso que um dos maiores monumentos arquitetônicos do país seja mesmo a Mesquita Azul, pois é da Turquia que nos veio a palavra turquesa (literalmente, "turca"), nome de um tom muito especial de azul, característico da pedra preciosa que leva o mesmo nome - pedra essa que, segundo Bluteau, era "'a gabadinha” dos turcos» (no pitoresco Português do séc. 18, gabadinha significa "a preferida, a que está na moda").
O SEGUNDO é sobre o Bósforo, o estreito de Istambul, que separa a Europa da Ásia. Seu nome, dizem, tem origem no mito de Io, a jovem sacerdotisa seduzida por Zeus. Para evitar que Hera, sua sempre vigilante mulher, descubra a aventura, Zeus disfarça a moça com a aparência de uma novilha, mas em vão: Hera descobre a tramoia e faz com que uma mutuca implacável persiga a coitadinha. A infeliz vaquinha, então, desesperada, teria atravessado o estreito a nado - daí o nome Bósforo, do Grego bous (“boi”) e póros ("lugar de passagem”) - o que vem dar, literalmente, “Passo do Boi”.
O TERCEIRO é sobre o nome Capadócia - ou melhor, capadócio, termo que designa o habitante da região, mas também - e aí vem a surpresa - o indivíduo malandro, desonesto, trapaceiro, charlatão. Assim aparece em Aluísio Azevedo, em Lima Barreto ("seu irmão, capadócio, tocador de violão, capoeira, altivo e corajoso, mas inútil"), em Machado de Assis (“dizia-nos os últimos nomes: éramos sevandijas, capadócios, malcriados, moleques”). Por que isso? A primeira explicação que li ficou gravada para sempre na minha mente, como tudo o que li em Monteiro Lobato: quando o pessoalzinho do Sítio do Pica-Pau Amarelo encontra São Jorge (que nasceu na Capadócia), Emília comenta, na bucha: "Lá no sítio, quando alguém quer dizer que um gajo não presta, e é vadio ou malandro, sabe como diz? Diz que é um capadócio!" São Jorge, então, com a humildade que se espera de um santo, justifica o emprego pejorativo: “Meus patrícios lá da Capadócia sempre tiveram má fama - e fama exatamente disso, de mandriões, de fanfarrões, de mentirosos". Ao que Emília, nunca vencida, acrescenta, para encerrar o assunto: “Mas acho que o senhor não deve andar dizendo que é um capadócio, porque não há o que desmoralize mais... ". Pois caros leitores, eu pretendo, numa roda de chimarrão, contar tudo isso às minhas filhas - e também lembrar a elas, por oportuno, que esse tal de crepúsculo sobre o Bósforo deve ser fichinha diante do pôr-do-sol no Guaíba, esse sim, incomparável...
Sábado, 7 de janeiro de 2012.
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