Trégua
Martha Medeiros
Se hoje não é um dia como os outros, eu também não vou ser igual a mim. Por hoje, vou considerar que a Paris Hilton contribui com sua graciosidade para tornar o mundo mais alegre, e que a Britney Spears é de extrema relevância para o cenário da música internacional, e que se ela está gorda ou se está separada é, sim, algo que deve ser levado em conta pela imprensa do mundo inteiro. Minha cortesia para com estas duas louras essenciais.
Por hoje, vou acreditar que os parlamentares que tentaram um aumento de 91% em seus salários o fizeram por necessidade e que iriam, como prometeram, enxugar as despesas em outros setores do governo, para compensar. E que trabalharão incansavelmente de segunda a sexta, mais de oito horas por dia, na tentativa de fazer do Brasil um país decente e socialmente mais justo. Eles hão de merecer cada centavo deste salário pelo qual lutaram com tanto desinteresse pessoal.
Arrisco profetizar que, a partir de amanhã, os voos sairão todos no horário, não haverá mais ponto cego no céu, nenhuma aeronave colidirá no ar, e que, além disso, a Varig voltará a ser uma empresa forte e irá recontratar todos aqueles funcionários que foram demitidos em 2006. Questão de horas.
Hoje não reclamo do governo. Por que haveria? O Lula chorou na cerimônia de diplomação, e ainda por cima torceu pelo Inter na final do Mundial de Clubes. Eu lá vou desconfiar de um sujeito com tamanha sensibilidade?
E qual é o problema de ser uma socialite? De consumir por consumir? De só se apaixonar depois de dar uma conferida no saldo bancário do pretendente? De fazer sacrifícios para parecer ter vinte anos menos? Que mania de pegar no pé de quem está tentando apenas ser feliz.
Tem mais: acordei desconfiando dos índices de violência que tanto nos assustam. Vai ver é o que dizem por aí: alarmismo pra vender jornal. Exagero da mídia, que tem essa mania irritante de só divulgar o que é ruim. É só olhar para os parques e ver como há gente bonita e saudável praticando esporte, como os botecos seguem lotados de amigos tomando um chopinho.
Garanto que todo mundo terá alguém para abraçar logo mais à noite. Ninguém vai morrer neste domingo. Pensamento positivo.
O Bush não deve ser assim tão estúpido, alguma coisa ele deve ter de bacana. As árvores de Natal, hoje, estarão repletas de livros empacotados para presente. E qual a razão de se preocupar com o aquecimento global se o planeta pode suportar ainda, digamos, uns vinte anos?
Ninguém vai dirigir alcoolizado depois da ceia. As crianças de rua reencontrarão o caminho de casa, onde pais carinhosos as estarão aguardando. Ah, quem dera pudéssemos viver assim, com tamanha paz de espírito, acreditando na bondade infinita, na solução automática dos problemas, na boa vontade dos políticos, no poder do nosso otimismo. Seríamos todos uns alienados, eu sei, porém menos rudes e menos tensos. Por isso, hoje, resolvi acreditar não só em Papai Noel, mas em tudo. Vou deixar para cair das nuvens só na terça, e que terça demore. Feliz Natal.
Domingo, 24 de dezembro de 2006.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.