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Trauma

Luis Fernando Verissimo

Pais separados, o Artur, 12 anos, vivia com a mãe e passava os fins de semana com o pai. Quando chegava à casa do pai era submetido a um interrogatório. Sempre.

- Como é que está sua mãe?

- Sua mãe fala muito em mim?

- Sua mãe arranjou namorado?

Ou:

- Sua mãe tem visto alguém?

Quando voltava da casa do pai no domingo à noite, era submetido a outro interrogatório.

- Como é que está o seu pai?

- Seu pai fala em mim?

- Seu pai está com alguma namorada?

Ou:

- Seu pai está saindo com alguém?

Saco.

flor

Um dia a mãe disse para o Artur dizer ao seu pai que precisava falar com ele. Que quando ele trouxesse o Artur no domingo à noite era para entrar. Para conversarem. O pai achou ótimo. Também precisava conversar com a ex-mulher.

No domingo o pai entrou, a mãe mandou o Artur ir tomar banho, e antes que o pai pudesse se sentar, declarou:

- Assim não vai dar, Gilson.

- O quê?

- Assim o Artur não vai poder continuar indo à sua casa.

- Assim como?

- Aquilo não é ambiente pra ele.

- Por quê?

- Ele me contou. Primeiro tentou esconder, mas eu apertei e ele acabou contando tudo.

- Tudo o quê?!

- As duas loiras. O hóspede travesti. As pílulas. Como é que você pôde, Gilson? Com o seu filho dentro de casa!

- Peraí. Peralá. Que história é essa? Duas loiras? Travestis? Pílulas?

- É. E ele vendo tudo.

- Ele não viu nada!

- É o que você pensa. Viu tudo. Me descreveu até as loiras. Uma magra, a outra mais cheinha. E as tatuagens do travesti. Ficou traumatizado.

- Ele não viu nada porque não havia nada pra ver. É tudo invenção dele.

- Por que o Artur iria inventar uma coisa dessas?

- Não sei. Talvez por trauma, com o que ele tem visto aqui.

- Aqui?!

- É. O que ele ouve a noite inteira, quando seu namorado fica pra dormir.

- Que namorado?!

- Sei até o nome dele. Carlos Augusto. E que tem a metade da sua idade.

- Ó Gilson, então você acha que eu... Isso é pura invenção do Artur!

- Será? Ele me deu detalhes bem precisos. E do outro também.

- Outro?!

- Um que ele não sabe se é chinês ou japonês, e que leva uma malinha preta quando vocês vão pro quarto.

- Artur! Venha cá!

flor

Artur teve que pedir desculpas, mas deu resultado. Os interrogatórios acabaram. Hoje, de vez em quando, a mãe ainda começa a perguntar:

- Seu pai...

- Uma ruiva chamada Anabela e duas policiais militares.

- Não. Sério, Artur.

- Eu estou sendo sério.

A mãe ri e comenta: “Que imaginação”. Depois fica pensando: “E se for verdade”? Mas não pergunta mais nada.

O pai também tenta se controlar, mas às vezes não aguenta.

- Sua mãe...

- Agora anda com uma moça que parece homem, chamada Castro.

- Não brinque com essas coisas, meu filho.

- Eu não estou brincando.

O pai sacode a cabeça e ri, e pensa, “Esse garoto ainda vai nos sair um escritor...” E depois: “E se for verdade”? Mas não pergunta mais nada.


Domingo, 10 de julho 2005.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.