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Sucesso

Martha Medeiros

Nossa velha e conhecida arrogância nos impede de reverenciar aquilo que está sendo gostado por muita gente.

Você está numa loja de discos a fim de descobrir algo novo. Pega um CD aleatoriamente, bota pra tocar e adora. Você nunca tinha ouvido falar daquela banda, o disco foi recém lançado, sem divulgação. Você compra. E leva este segredo pra casa. Cada vez que mostra para os amigos, eles vibram. Virou seu disco de estimação. Dali a um mês você liga o rádio numa FM e está lá a sua música predileta, rodando entre o Bom Jovi e a Avril Lavigne. Caiu no mundo. Entrou nas paradas. Toca 26 vezes por dia. E pra coroar seu desespero, virou trilha de novela. O sonho acabou. O CD voa pela janela.

Acho que todo mundo já passou por isso: cultuar algum filme, música ou livro que, depois que cai na boca do povo, passa a merecer apenas desprezo. Por quê? Ora, por quê. Porque não pega bem render-se ao sucesso. Nossa velha e conhecida arrogância nos impede de reverenciar aquilo que está sendo gostado por muita gente. Se todo mundo está comprando, se todo mundo está falando bem, se a coisa “vende”, eca, é porque não tem valor.

Que a gente deixe de escutar uma música por exaustão, entendo. Tudo que massacra, enjoa. Mas desprezar o sucesso pelo simples fato de ser sucesso é coisa pra se pensar. Existem dois tipos de “sucesso”: aqueles fabricados do dia pra noite e com prazo Andy Warhol de validade (o grupo Rouge, pra citar um exemplo) e aqueles que começaram anônimos, atraindo apenas meia dúzia de antenados. Só que esta meia dúzia falou para mais meia dúzia, que passou a informação adiante e aí, um belo dia, ganha-se a mídia. Que maravilha. Que encrenca.

Iniciantes costumam merecer nossa condescendência. Salve, salve o alternativo. Mas o que fazer quando os alternativos são abençoados pelo mainstream? Transformamos condescendência em veneno. Fica combinado que ninguém realmente bom pode fazer sucesso, ganhar dinheiro e fugir das nossas mãos. Artista que deixa de ser apenas de uns e outros pra ser de todos é o fim. Mídia, você sabe: é meio, média, medíocre, esta livre associação de palavras que faz babar de satisfação a elite cultural do país. Aí tem. Ou melhor: não tem. Não tem mais talento, não tem mais afago. Se o povo gosta, aos narizes-empinados restará apenas nostalgia: “Ele era muito melhor quando ninguém o conhecia”.

Tem gente que não tem talento, são novidades frugais, rapidinho passam. Tem gente que tem talento mas se acomoda: acaba esquecido, será recordado talvez numa retrospectiva da obra. E tem gente que tem talento, não se acomoda e passa o reto da vida se renovando, se reciclando, batalhando, sendo novo todo dia. Só assim serão perdoados por serem bons.


Domingo, 25 de julho de 2004.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.