Sonso
Cláudio Moreno
Nossa língua – séculos mais, século menos – tem lá seus novecentos anos de existência, ao longo dos quais não foram poucas as palavras que se afastaram do sentido original. Queiramos ou não, elas sempre vão mudar, porque este é o seu destino: ao contrário da pedra ou da chuva, elas só existem em nosso pensamento e terão o valor, portanto, que os falantes de uma determinada época, por meio de outras palavras, atribuírem a elas. Algumas mudam tanto que acabam antônimas de si mesmas, verdadeiras palavras dupla-face; este processo linguístico muito chamou a atenção de Freud e é até hoje estudado pela Psicanálise, que o chama pelo nome técnico enantiossemia – do Grego anantio, “contrário, inverso” e semia, “significado”.
Já comentamos aqui o caso – um belo exemplo para o que acima afirmamos – de temporão. Por muito tempo este termo, nascido da mesma família que o Espanhol temprano (“cedo”), serviu para designar aquilo que acontecia antes do tempo: uma morte temporã era uma morte prematura, assim como os frutos temporões eram aqueles que amadureciam antes da hora prevista. Pois um belo dia (que demorou centenas de anos), a palavra sofreu um giro de 180º e passou a significar “tardio”, num sentido diametralmente oposto ao que tinha ao nascer. Para o falante atual, um filho temporão é aquele que vem quando os outros filhos já estão criados, e os frutos temporões amadurecem quanto o tempo normal da colheita já terminou. O problema surge quando lemos autores de outras épocas ou de outros países onde também se fala o Português: quando um autor fala de uma “paixão temporã”, só o contexto nos dirá qual dos lados da moeda está valendo.
Depois veio handicap, vocábulo que fomos buscar na Inglaterra, onde significa “desvantagem” (para quem se surpreende, lembro que o Inglês formou daí o termo handicapped, que abrange, de forma genérica, os deficientes físicos). Ora, como é usado para designar, no golfe e no turfe, uma certa soma de pontos que o concorrente melhor precisa ceder ao outro para que a disputa fique parelha (portanto uma desvantagem para o mais forte, mas uma vantagem para o mais fraco), o termo assumiu no Brasil o sentido inverso daquele que tinha ao nascer, tornando-se duvidosa sua interpretação: sem a oração que vem depois do ponto-e-vírgula, seria impossível ao leitor saber com certeza o que eu quero dizer com uma frase simples como “Seu maior handicap foi ter estudado Medicina em Cuba; agora, aguente as consequências” (a propósito: para quem ainda tem dúvidas sobre qual é o nosso melhor dicionário, recomendo cotejar o verbete handicap do Houaiss com o do Aurélio ou do Aulete; a superioridade do primeiro é constrangedora!).
Explico isso tudo porque uma jovem estudante de Campos, no Rio de Janeiro, inconformada com a correção de uma prova, escreveu para meu saite (www.sualingua.com.br) em busca de socorro e de conforto: numa questão valendo um ponto inteiro, a professora pediu um sinônimo para a palavra sonso nesta frase de Clarice Lispector (A Hora da Estrela) – “Assim é que os senhores sabem mais que imaginam e estão fingindo de sonsos”. Diz ela: “Eu coloquei tolo e ela marcou errado. Reclamei, mas ela abriu o dicionário e disse que o sentido certo de sonso é dissimulado – e encerrou o assunto. Mas professor, minha avó até hoje ralha comigo e diz que não é para eu me fazer de sonsa – isso é boba, não é?”.
Em primeiro lugar, minha jovem, vejo que tua avó é tão sabida quanto era a minha, de quem tantas vezes ouvi o “não te faz de sonso” (com o tratamento típico do gaúcho e com o imperativo negativo exatamente como deveria ser, e não com o artificialíssimo “não te faças” que nos impingiram): um dos significados de sonso (o mais antigo, vindo de zonzo do Espanhol) é mesmo o de “tolo, tanso, simplório”. O outro sentido, dominante, é exatamente o oposto. Para Bluteau, é o “maliciosamente simples”; para Morais, é “o astuto e fino que cobre a sua esperteza com ar e mostras de simpleza e tolice” – e assim para todos os dicionários modernos, que destacam o caráter dissimulado da sonsice. Em segundo lugar, fica com a consciência tranquila, pois tua resposta estava certa. A professora fez muito bem em mostrar o dicionário – o aluno só tem a ganhar nesses contatos com o “amansa” -, mas não percebeu, como tu, que o verbo fingir aponta para o significado mais antigo de “tolo, abobado”, já que ninguém “finge ser dissimulado”. O estilo impreciso de Clarice também contribui para o embrulho: “os senhores sabem mais do que imaginam mas estão fingindo de sonsos” não tem pé nem cabeça, qualquer que seja o sentido que se atribua aqui a sonso – mas nesse banhado eu não entro, que não sou bobo. Fique o abacaxi para a crítica literária.
Sábado, 4 de fevereiro de 2012.
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