Saudades
Cláudio Moreno
Georges Simenon diz que é muito fácil adivinhar quantos anos tem um escritor: basta prestar atenção aos comentários que ele faz a respeito da idade de seus personagens. Que o diga Pedro Camacho - o engraçadíssimo autor de novelas de rádio que Vargas Llosa imortalizou em seu Tia Júlia e o Escrevinhador -, que sempre denunciava sua própria idade pela forma com que caracterizava os protagonistas de seus enredos: um tal de sr. Federico, por exemplo, é apresentado como um homem “na flor da idade - nos cinquenta”, enquanto uma certa Dra. Lucia é descrita como uma “mulher superior e sem complexos, chegada ao que a ciência deu em considerar a idade ideal - os cinquenta”.
Seguindo o mesmo princípio, posso presumir, com razoável segurança, que deve ser muito jovem o autor do e-mail que recebi: “Prezado professor, gostaria de saber por que andam usando saudade no plural. É muito esquisito quando alguém diz que está sentindo muitas saudades, o senhor não concorda? Uma gramática que tenho em casa diz que este plural está correto, mas é um livro muito antigo, de 1998, e não sei se dá para confiar nele. Fica gozado: uma saudade, várias saudades... Não consigo me convencer de que sentimentos possam ser quantificados; em toda a minha vida, nunca ouvi alguém dizer que sentia invejas ou raivas. O que o senhor acha disso? Cordialmente, D. Casmurro”.
Por que afirmo isso? Elementar, meu caro Watson: só uma pessoa de pouca idade pode considerar “muito antigo” um livro publicado ainda ontem, há menos de quinze anos... Além disso (vou me arriscar mais um pouco nesta trilha sherlockiana), parece ser um jovem de rara estirpe, interessado o bastante em nosso idioma para se dar ao trabalho de escrever para esta coluna - e isso depois de ter consultado, de moto próprio, uma gramática, o que, por si só, já seria verdadeiramente admirável, nestes nossos dias de escassa ciência! Além de educado (o tom polido do texto e o fecho cordial não deixam dúvidas), este jovem ainda por cima é leitor de Machado (imaginando que o pseudônimo não tenha sido escolhido ao acaso) e já aprendeu a duvidar de suas próprias certezas, pois veio conferir comigo suas convicções. Parabéns! Não posso deixar que tantas qualidades reunidas passem sem o merecido registro e elogio.
Meu jovem consulente diz que nunca ouviu usarem invejas ou raivas; deve ser, acredito, porque ainda não viveu o tempo necessário para visitar todos os rincões desse mundo variadíssimo que é a nossa língua. Mais um pouco de estrada e já teria deparado com plurais como tristezas, alegrias, ódios ou amores. Em textos mais específicos (Filosofia, Psicologia, etc.), vocábulos como felicidade, raiva, ciúme, etc. geralmente aparecem no singular. No entanto, no uso quotidiano das pessoas cultas - seja na fala, seja na escrita -, essas palavras aparecem também no plural (acho que todos concordam comigo: seria um escândalo cantar o Parabéns a você trocando o “muitas felicidades” do quarto verso por um chochíssimo “muita felicidade”...).
Na literatura, então, esses plurais são comuníssimos, como pode ser constatado em autores tão diversos quanto Sá de Miranda, Bernardes, Francisco Manuel de Melo, Eça de Queirós, Garret, Herculano, Camilo Castelo Branco, Rui Barbosa ou Machado de Assis. Sá de Miranda - poeta que começou a escrever mais ou menos no ano em que o bom Cabral resolveu descobrir o Brasil - já falava de “ciúmes e invejas”. No século 17, o padre Vieira, gênio da língua, decididamente preferia os plurais: em sua correspondência diplomática, menciona “impaciências e raivas pela nossa corte”; falando dos índios de então, afirma que entre eles “nem há ódios, nem invejas, nem vinganças, nem cobiças, nem ambições” - e isso que estou escolhendo a esmo dois exemplos dentre as dezenas que podemos encontrar em suas cartas e sermões.
Desde o tempo de Camões, o maior de todos os quinhentistas, o plural saudades tem sido tão usado quanto o singular saudade. Uma visita detalhada ao texto de Machado (com a rapidez e a facilidade que. os deuses da informática nos propiciaram) revela, prezado Dom Casmurro, um dado que certamente vais apreciar: o teu ilustre patrono emprega saudade tanto no singular quanto no plural! “A carta é longa, cheia de ternuras e saudades”; “Fidélia voltou para casa, levando e deixando saudades”; “compreendo as saudades que a terra de cá lhe desperta” - mas “não pôde reter algumas velhas lágrimas de saudade pelo marido”; “a piedade dessa estende-se à memória da mãe e do pai, à saudade das amigas”; “não a convidarei a tocar aqui; o aplauso podia avivar-lhe a saudade”. Há centenas de exemplos como esses, mostrando que optar entre o singular e o plural é apenas uma questão de gosto, de instinto e de estilo - mas não de regra.
Sábado, 17 de dezembro de 2011.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.