Satisfações
Luis Fernando Verissimo
Da recepção avisaram que tinha um Carmano para falar com ele. Carmano, Carmano... O nome não lhe era estranho. Queria falar com ele ou com qualquer um do jornal?
- Pediu para falar com o senhor.
- Manda subir.
Estava só ele na redação. Às quintas, sempre ficava até mais tarde para fechar o caderno de cultura que saía nos domingos. Fazia o caderno de cultura quase que sozinho. Editava, diagramava, escrevia resenhas... Resenhas. Era isso. Comentara um livro desse Carmano semanas antes. Um livro policial. Metera o pau. Na certa o tal de Carmano viera pedir satisfações. Tarde demais para barrá-lo na recepção. Ele estava subindo. Ele estava no elevador. Talvez já engatilhando a pistola com que se vingaria da crítica. Ou seria uma navalha? No livro o assassino usava uma navalha.
Mas o Carmano que entrou na redação parecia estar desarmado. Era um homem franzino, camisa fora das calças, mais moço do que ele. Chamou-o de senhor.
- O senhor é o Zardo do caderno de cultura?
- Sou eu.
Ele estendeu a mão.
- Carmano. O senhor escreveu sobre o meu livro na semana passada.
- Ah, certo. Certo. E aí? Tudo bem?
- Eu só queria fazer uma pergunta.
- Faça.
- O senhor...
- Me chame de você.
- Você disse que a cena do crime era inverossímil. O cara sozinho no local de trabalho. Como o criminoso iria saber que o cara estava sozinho, lembra?
- É. Olha. Inverossímil, não. Achei meio forçado.
- O senhor escreveu "inverossímil".
- No sentido de forçado. Improvável. Coincidência demais.
- Era só o assassino investigar a vida do cara para descobrir os seus hábitos, a sua rotina de trabalho. A cena não era inverossímil.
- Mas você não escreveu nada sobre essa investigação. Ficou parecendo que o assassino foi matar o cara contando com a coincidência, contando com a eventualidade de ele estar sozinho. Quer dizer...
- Mas a investigação está subentendida.
- Não. Péra um pouquinho. Você não pode pedir que o leitor subentenda nada. É como pedir que ele faça o seu trabalho por você. O leitor só sabe o que você diz pra ele. Só sabe o que você quer que ele saiba.
- Como é que você sabe?
- Eu sei, meu caro. Estou cansado de ler policial. E sempre me coloco no lugar do leitor comum. E o leitor comum nunca subentende. Entende o que você lhe conta ou não entende nada. Subentender, nunca. Não é a função dele.
- Se for inteligente, subentende. Talvez você não seja um leitor inteligente.
- Bom, se você vai partir para...
- Por exemplo: o que o senhor subentende da minha presença aqui, hoje, a esta hora?
- O quê?
- Não está subentendido que eu pesquisei a sua vida, descobri a sua rotina de trabalho e sabia que às quintas você fica até tarde na redação, e que a esta hora estaria aqui sozinho? Aqui onde eu posso matá-lo sem que ninguém veja, e ninguém descubra até eu estar longe?
- Me matar?
Carmano levou a mão direita às costas. Disse:
- Não está subentendido que eu tenho uma arma na cintura, aqui atrás?
- Que arma?
- Subentenda.
- Navalha?
- Vejo que o senhor leu meu livro com atenção. Não gostou, mas leu até o fim. Outra pergunta. Por que o senhor disse que a identidade do criminoso ficava evidente desde o começo, no livro?
- Porque o criminoso era obviamente o menos provável, o que parecia mais inofensivo, o que ninguém desconfiaria.
- Por que era um insignificante como eu?
- Não. Eu...
- O senhor acha verossímil que eu tenha uma navalha aqui atrás?
- Acho. Quer dizer...
- Pois não é uma navalha.
Carmano começou a movimentar o braço lentamente, para mostrar o que tinha na mão escondida. Zardo:
- Você vai me matar por causa de uma resenha? Só porque eu...
- Você me ridicularizou. Você me chamou de inocente inútil. Disse que eu tinha muito que aprender sobre livros policiais e que a primeira lição era não fazer outro.
- Mas eu gostei, viu? Eu gostei! Achei um pouco forçado mas...
Carmano mostrou a mão. Ela também não segurava uma pistola. Imitava uma pistola, com dois dedos estendidos. Que ele apontou para a testa de Zardo.
- Veja. Uma pistola subentendida.
E fez:
- Pum!
Depois que se recuperou, Zardo ligou para a recepção e deu ordens para nunca mais deixarem entrar alguém para falar com ele, às quintas. Naquele domingo sairia uma resenha dele metendo o pau no trabalho de uma nova poeta. Era só o que faltava, a poeta também ir pedir satisfações.
Talvez agredi-lo com o salto do sapato. Ou coisa pior. Com as poetas, nunca se sabe.
Domingo, 2 de março de 2003.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.