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Ressurreição

Martha Medeiros

Pensei em fazer uma lista de pessoas que eu gostaria que voltassem a viver. Não seria uma lista de pessoas com quem convivi, e sim de pessoas públicas. Pensei, pensei, e cheguei à conclusão de que seria uma lista interminável e nostálgica demais. Incluiria Clarice Lispector, Cazuza, Herbert de Souza, Dina Sfat, Elis Regina, Paulo Francis, Renato Russo, só para citar alguns dos brasileiros que, se não tivessem morrido, ainda poderiam estar produzindo, mesmo velhinhos (Clarice Lispector teria hoje 82 anos). Mas aí lembrei que os leitores têm preferências diferentes das minhas e sempre haveria quem tivesse disposição para se queixar: por que a ausência do Ayrton Senna na sua lista? E a de Lauro Corona? E a de Buchecha? Como eu não tenho nada contra ninguém, mas não poderia fazer uma lista de mil nomes, desisti da ideia. Resolvi fazer uma lista das pessoas que eu gostaria de matar.

Também não incluiria pessoas do meu círculo íntimo, já que tenho amor ao meu pescoço. Outra vez seria uma lista de pessoas públicas, mas conclui que seria igualmente interminável. Muitos nomes vieram a minha mente em poucos segundos: aquele do programa de domingo, aquele outro também, aquela perua sem dúvida, aquele corrupto... mas desisti. Lembrei do prezado leitor, que não permite que se brinque com estes assuntos e que me colocaria rapidamente no topo de sua própria lista de seres indesejáveis. Resolvi então fazer uma terceira lista: a de pessoas que eu gostaria que nascessem.

Eu gostaria que nascessem vários caras que tivessem liderança para botar ordem no mundo com ideias pacifistas e revolucionarias, queria que nascessem várias mulheres e homens com um talento fora de série para a arte e que não precisassem se render às exigências de mercado, queria que nascessem pessoas menos preguiçosas e indolentes, pessoas mais positivas e criativas, queria que nascesse um indivíduo que fosse capaz de dar uma freada neste trem e fazer a gente trocar de rota, rumo a um mundo menos seco, estúpido e brutal, e que ele conseguisse recuperar o prestígio dos sentimentos, que nunca esteve tão em baixa. Queria, principalmente, que nascesse mais pessoas capazes de mudar as coisas do que pessoas capazes de se adaptar a elas. Mas para isso Cristo teria que nascer de novo.


Domingo, 20 de abril de 2003.



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