Reflexões
Luis Fernando Verissimo
Até inventarem a fotografia, a grande maioria dos seres humano nunca tinha visto seu verdadeiro rosto. O que via refletido era o seu inverso. Sua direita na sua esquerda, o cabelo repartido do lado errado... Toda vez que olhava num espelho a pessoa cometia uma gafe: tomava alguém parecido com ela por ela mesma.
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Durante anos carregamos conosco a imagem de um contrário como se fosse a nossa. Só os outros conheciam a nossa cara certa. A relutância em abandonar esse equívoco persiste. Por isso ninguém se conforma com sua fotografia no passaporte.
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Narciso absolvido. Nunca se viu, realmente. Não amava a si mesmo, amava um semelhante.
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Clarice Lispector escreveu que o rosto é o nosso avesso. No espelho o rosto está trocado, é o rosto de alguém que não existe, o avesso de nada. Daí aqueles encontros definitivos no espelho para pôr tudo a limpo, cara a cara e segundos fora, nunca darem certo. Eram encontros com outros.
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Tirar a própria fotografia é a terceira coisa mais intima que uma pessoa pode fazer com si mesma, depois da masturbação e do suicídio. A tentação de fazer uma careta é o reconhecimento de que o momento é de uma solenidade insuportável.
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Já a careta no espelho é sempre um teste. Tememos que um dia o outro não acompanhe a careta. Ou faça outra, de enfaro. De “poupe-me”.
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Mas nunca deixamos de nos olhar no espelho. É uma curiosidade insaciável. O espelho junto à boca do morto que não fica embaçado não prova a sua morte. Só se seus olhos não se procurarem no espelho é certo que sua curiosidade morreu, e ele também.
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Havia, claro, os privilegiados que se conheciam, mesmo antes da invenção da fotografia. Os retratados. Estes se viam como os outros os viam. Ou como o artista os via. O poder do artista: mostrar aos senhores do mundo sua verdadeira cara. Lhes dar o supremo privilégio de independer da informação do espelho.
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Uma definição de elite, até a revolução democrática da fotografia: aqueles que conhecem a própria cara.
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Até hoje se pergunta como Goya escapou do castigo depois de pintar a família real espanhola daquele jeito, sem disfarçar o tamanho de um queixo ou aplainar uma verruga. É que ser retratada, pertencer à pequena e exclusiva ordem dos que sabem a cara que tem, era vaidade suficiente para a nobreza.
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Os ricos burgueses flamengos retratados por Rembrandt e Hals não se importavam de se ver em toda a sua pomposa vacuidade, desde que pudessem se ver. O que era impossível para os seus criados, aquele povinho do espelho. A não ser que aparecessem num canto do quadro junto com os cachorros.
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Rembrandt, Van Gogh e os outros só não pintavam o rosto real quando se pintavam. Aí pintavam o que viam no espelho. Pintavam o equívoco.
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Todo auto-retrato é falso. A orelha está no lado errado. Inclusive a que Van Gogh cortou fora.
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Você numa cabine fotográfica para fazer um auto 3 x 4 instantâneo. Num flash, toda a história da auto-contemplação humana passa diante dos seus olhos, e você não pode piscar. O momento da verdade. Você não acredita mais no espelho, você aceitou o desmentido. Não adianta, você É a sua foto no passaporte.
Domingo, 2 de outubro de 2005;
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.