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Rarefazendo-se

Luis Fernando Verissimo

Berço é tudo. Quem não tem berço não sabe de onde veio nem para onde vai e o que lhe cabe das bênçãos do mundo. Mesmo em países sem pedigree como o Brasil, em que a tradição deve se adaptar à umidade e aos insetos, berço é tudo. Não faz muito, perguntei a maman se meu berço era mesmo de ouro, e ela respondeu: “Folheado, mas não espalha”.

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Para terem uma ideia do meio em que fui criado: certa vez tive que descrever ao médico da família a cor da minha expectoração, numa das minhas gripes infantis, e respondi “verde Watteau”. Instado por papá a ser mais especifico, disse que meu catarro lembrava o céu aquoso no fundo do quadro Les plaisirs du bal do mestre do rococó francês. Eu tinha sete anos e maman ainda me vestia de veludo. (Lembro até hoje da assadura nas coxas, para não dizerem que foi uma infância sem traumas). Desconfio que o médico da família me receitou um purgante forte, estranho remédio para uma gripe, por pura implicância com a minha precocidade.

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Durante toda a vida tive que enfrentar o ressentimento dos menos afortunados. Com a minha origem, como o dos meus colegas de internato na Suíça quando me pediam para mostrar onde ficavam nossas propriedades no Brasil e eu dizia que nossas propriedades eram o Brasil, e eles me chutavam. Com o meu refinado gosto artístico, como o da plateia quando eu subi no palco durante um concerto regido por von Karajan para corrigir o dedilhado do “spalla” e fui retirado à força, esperneando e gritando sob vaias: “Alguém tinha que defender o Beethoven!”.

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Sou filho único. Maman só teve a mim. Segundo ela, toda mulher deve ter a experiência de um parto na vida, mas dois já é mania. Como vingança, eu fingia que não conseguia distinguir maman das minhas babás e até sugeri que usassem crachás, para facilitar a identificação. Tive várias amas-de-leite – na verdade ainda tenho uma, que viaja comigo, pois não aceito outro leite com meu café da manhã a não ser o dela. (Já fomos expulsos de alguns dos melhores hotéis do mundo, onde confundiram meus hábitos alimentares com atos de luxúria com uma classe inferior). Chér Bonifácia.

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Nunca entendi muito bem o que papá faz. A resposta que ele dá – “Qualquer coisa” – não ajuda. Sei que descendemos de portugueses que chegaram ao Brasil com as primeiras caravelas e, desde então, não pararam de explorar os nativos e mandar tudo o que encontram ou fazem por lá para fora. Ouro, prata, minério, pedras preciosas, borracha, açúcar... Nossa família era a maior dona de escravos do Império, e papá ainda mantém escravos clandestinamente nas suas plantações e engenhos, para honrar a tradição. Papá é um sentimental. Foi o último da nossa linhagem a nascer em berço de ouro maciço. Estudou na Inglaterra e também me mandou estudar na Europa, onde, ao contrário dele, adquiri uma consciência social, comecei a pensar seriamente na situação do meu país e dos meus conterrâneos, e tomei uma decisão: nunca mais voltar da Europa.

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Fui precoce em tudo. Comecei a andar com menos de dois anos de idade. Em Paris. Nunca tinha estado lá antes, mas sabia exatamente onde queria ir. De repente fiquei de pé, dei ordens: “Não me segurem nem me guiem!” – e fui passear na beira do Sena, subir à Sacre Coeur, ver as ninfeias do Monet, com maman e sua ajudantes correndo atrás, e só parando para trocar as fraldas. Papá pagou meus anos de conservatório e de Cordon Bleu e me mantém na Europa com remessas ilegais, ajustadas conforme o preço dos Bordeaux da temporada. Apesar da distância, comecei a notar uma estranha relação entre a minha vida e a situação do Brasil. Quando mais brutal fica a vida aí, mais depurados ficam os meus gostos aqui. Hoje só como quando consigo mesa no El Buli, perto de Barcelona, onde sempre peço uma espuma tão volátil que às vezes foge do prato e é preciso persegui-la pelo salão. No resto de tempo, me sustento com os Bordeaux, o leite da Bonifácia e a arte. Estou magro e lúcido, substitui a digestão de sólidos pela ruminação de teorias abstratas. As más notícias do Brasil aguçam meu ouvido perfeito, já sou barrado na ópera porque temem que eu interrompa uma ária, reclamando da afinação. Sinto que a situação do Brasil deteriora à medida que me rarefaço.

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Papá manda dizer que está difícil de mandar a mesada em dinheiro, mas que tem investido em outras áreas, e pergunta se eu me importo de receber em cocaína. Olho-me no espelho e estou tão rarefeito que quase não me enxergo.


Domingo, 27 de agosto de 2006.



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