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RSVP

Luis Fernando Verissimo

Ideia para uma peça.


No palco, uma mesa posta para 13 pessoas. Copos, pratos e talheres rústicos, grossas velas toscas e, na frente de cada lugar, um cartãozinho com o nome de quem deve sentar-se ali. Ninguém no palco.

Da esquerda aparece um mordomo seguido de um casal elegantemente vestido. O casal entra em cena visivelmente inseguro, olhando para todos os lados. O mordomo anuncia que os outros não demorarão a chegar e diz para o casal ficar à vontade. Se quiserem, podem beber água da moringa. O mordomo sai de cena. O casal se entreolha. Ela diz, num cochicho:

- Onde nós estamos?

Ele, cochichando também:

- E eu sei?

- Olhe o convite de novo.

O homem tira o convite do bolso do smoking e o examina pela décima vez. O convite ainda diz a mesma coisa.

- Só a data, a hora, o endereço e, em baixo, "RSVP".

- Esse "RSVP" é que é a chave de tudo. Deve ser as iniciais de alguma coisa.

- Mas do quê?

- "Reunião dos..." Sei lá.

- Podemos estar no jantar errado.

- Mas o mordomo viu o convite e nos deixou entrar.

- Olhe os cartõezinhos para ver se os nossos nomes estão aí.

Ela (lendo):

- "João", "Tiago", "Pedro"...

Ele (lendo):

- "Mateus", "Simão", "Judas"...

- Viu? Nossos nomes não estão aqui. Estamos no lugar errado.

- "Jesus"!

Que foi?

- Neste cartãozinho... Está escrito "Jesus"!

Lentamente, eles se dão conta do que isto significa. Fazem a volta da mesa, um para cada lado, lendo os cartõezinhos outra vez. Se reencontram no meio da mesa.

- Aí está - diz ele. - Jesus ao lado de Pedro.

Os dois se encaram, de olhos arregalados e boca aberta. Finalmente, ele consegue falar.

- As letras...

- Que letras?

- Na cruz. Em cima da cabeça de Jesus Cristo. Não eram...

- RSVP!

Ele toma uma decisão:

- Vamos embora.

- Espera. E se a gente ficasse para...

- Está maluca? Isto aqui acaba mal. Não vamos nos meter nesta confusão.

- Mas...

- Olhe, o jantar vai ser horrível, acredite. Só pão ázimo, vinho barato e conversa de homem. Você seria a única mulher. Iria se sentir deslocada.

- Sim, mas...

- E eles, obviamente, não estão nos esperando. Pense no vexame.

A mulher se convence. Tudo menos uma gafe social. Os dois saem furtivamente do palco.


Domingo, 15 de fevereiro de 2009.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.