Pé-direito
Cláudio Moreno
DIREITO, AQUI, não é o oposto de esquerdo, mas sim de curvo ou torto
Uma leitora que me chama de "Sor" (na linguagem juvenil, é o masculino de "Sora", redução de "professora") precisa de meu auxílio para concluir uma tarefa da faculdade: "O dicionário diz que pé-direito é a distância entre o piso e o teto de um apartamento, mas não explica por que a gente chama assim. Imagino que este direito, aqui, não seja o antónimo de esquerdo, não é? E depois, tenho mais uma pergunta: afinal, o hífen não tinha sido abolido? Me ajude, por favor, que os anjos também o ajudarão".
Pois, prezada leitora, começo por informar que direito, aqui, não é o oposto de esquerdo, mas sim de curvo ou torto. Segundo o Dicionário de Arquitetura Brasileira, pé-direito seria o nome do esteio de madeira utilizado nas construções na técnica de taipa, muito comum em todo o Brasil desde o período colonial. As paredes são armadas com peças de madeira que sustentam um trançado de ripas, cobertas depois com barro ou argamassa. Não faz mal que os elementos que compõem essa trama sejam às vezes tortos ou irregulares, pois vão ficar encobertos; o importante é que o esteio que estrutura o ângulo da edificação e que define a altura do ambiente seja uma peça de madeira perfeitamente retilínea, pois usualmente fica aparente (Afonso Arinos traz um bom exemplo: "O lampião, há pouco aceso e pregado ao pé direito do rancho, fazia uma luz fumarenta"). Daí chamá-lo de pé-direito ou seja, "pau reto" (lembrando sempre que um dos significados de pé é "madeira ou árvore"). Atribuir a origem da expressão à técnica da taipa pode ser um tanto paroquial, mas é engenhosa e associa corretamente "direito" a "retilíneo".
Um engenheiro amigo (ora, eu também consulto especialistas...) trouxe um dado que veio ampliar a informação do dicionário: "Segundo velho livro, medido em pé e na posição direita (ortogonal, ângulo reto) em relação ao plano. Rua Direita é rua que chega ortogonalmente a uma praça, e não inclinada". Essa, aliás, é a mesma ideia que tem a expressão pied-droit, usada pelos arquitetos franceses para designar o elemento reto (seja parede, seja pilastra) em que se apoia a parte curva de uma abóbada ou de um arco.
Quanto ao hífen, é importante que saibas que, apesar do estardalhaço e da boataria, o Acordo só interveio no emprego do hífen com prefixos (autoanálise, anti-inflamatório, micro-onda, etc.) e nada alterou - excetuando-se uma meia dúzia de palavras - nos compostos de dois vocábulos, como onça-pintada, couve-flor, obra-prima, ou, no nosso caso, pé-direito (que decididamente, como vimos, não é o pé direito, sem hífen, companheiro do pé esquerdo). Espero que te satisfaças com a explicação, jovem leitora, e que os anjos, em regozijo, ajudem a todos os que vivem neste triste Brasil.
Para finalizar, aproveito outra vez para convidar os amigos para minha palestra nesta terça-feira, dia 28 de abril, às 19h30min, no Instituto Ling sobre o tema A Grécia na Obra de Monteiro Lobato (informações pelo fone 3533-5700 ou no site institutoling.org.br).
Sábado, 25 de abril de 2015.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.