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Primaveris

Luis Fernando Verissimo

O Charles Aznavour está fazendo a sua despedida definitiva do, como dizem os franceses, “show-bizinez”. Apresenta-se até o dia 21 de maio no Palais des Congrés, cujos dois mil e tantos lugares têm estado cheios todas as noites de admiradores que não querem perder a última oportunidade de ver o cantor e compositor num palco. Há uns dois anos, nós também fomos ao mesmo Palais des Congrés ver o mesmo Aznavour no que também era anunciado como a sua despedida definitiva e felizmente não foi. Os velhos ídolos franceses não desaparecem, vão despedindo-se definitivamente aos poucos. E não mudam muito. A não ser a Brigitte Bardot, que murchou nos lugares onde não devia, os outros continuam como versões só um pouco mais rústicas do que eram quando jovens. Johnny Halliday, o adolescente mais velho do mundo, ainda se veste e se comporta como no passado e tem público certo e entusiasmado para todas as suas despedidas. A Silvie Vartan também. O Charles Trenet só não continua como era porque se descuidou e morreu, mas foi igual até o fim. A Aznavour ainda canta e se move no palco como sempre, e tem certamente muitas despedidas definitivas pela frente. E acabo de ver o que o Sacha Distel está tocando num clube de jazz em Montparnasse. Aposto que não parece ter mais de 35 anos, incompletos. Deve ser alguma coisa na comida.

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Um fim de semana na Normandia incluiu uma visita a Le Havre. Dizem que ninguém vai a Le Havre se não tiver uma razão muito forte para isto, e turismo não é desculpa. Mas fomos como turistas primaveris. Le Havre é um dos dois grandes portos franceses – o outro é Marselha, no Mediterrâneo – e a cidade, totalmente destruída na II Guerra Mundial, foi reconstruída no pior estilo utilitário sem graça da arquitetura soviética. O gosto não melhorou com sucessivas administrações comunistas na cidade, mas foi redimido em parte com o convite para o Oscar Niemeyer construir o teatro municipal. E não é que os próprios caixotes monumentais acabam tendo um certo encanto evocativo? A cidade é interessante como qualquer porto e tem o atrativo adicional de ser uma inesperada Moscou à beira-mar. Era mais ou menos inevitável que o estalinismo também terminaria em nostalgia.

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Uma nota de pé de página da História. Os ingleses saberiam que os alemães já tinham desocupado Le Havre, que não teria mais nenhuma importância estratégica na II Guerra. Mas teriam insistido em arrasá-la, matando quase 15 mil dos seus habitantes, por uma previdente razão de interesse nacional. Le Havre seria eliminada como concorrente aos grandes portos ingleses depois da guerra. Foi da Normandia que saiu Guilherme o Conquistador para fundar uma nação naquela brumosa costa oposta do Canal da Mancha. Até hoje tem gente que acha que foi uma má ideia.

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A exposição do Miró no Centre Pompidou de Paris, também chamado de Mausoléu do Robocop, é completa e imperdível. Inclui desde os primeiros até os últimos rabiscos infantis do grande catalão. Mas quem for ver o Miró deve passar antes por uma pequena exposição chamada François, l’epreuve du feu no mezanino do Centre Pompidou. François, um dos grandes artistas gráficos do mundo, na linha do Saul Steinberg e do Millôr Fernandes, teve mesmo a sua prova de fogo. Há dois anos, um incêndio destruiu seu ateliê com tudo que ele tinha guardado, sua produção de muito tempo. E François, com 88 anos de idade, simplesmente decidiu fazer tudo de novo. A exposição é de tudo que ele fez desde o incêndio, incluindo algumas aquarelas pastorais de uma serenidade emocionante. O velhinho à prova de fogo continua genial como sempre. Tem que ser alguma coisa na comida.


Domingo, 9 de maio de 2004.



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