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Precaveja-se

Luis Fernando Verissimo

Como saber se a sua conversa telefônica está sendo gravada:

- Se antes de começar a falar, você ouve uma voz dizendo: "Silêncio no estúdio"!

- Se antes de começar a falar, ouve uma voz dizendo: "Fale pausadamente, enuncie bem as palavras e tente ser conciso".

- Se antes de começar a falar, ouve a instrução "Evite ironias, como, no fim da ligação, dizer: 'É com você, Bonner'".


Mesmo se não detectar sinais de que seu telefone está grampeado, acostume-se a falar em código, tendo o cuidado de combinar com seus interlocutores o significado real das palavras mais usadas em suas conversas. Por exemplo:

Tia Helga - Conta na Suíça.

Tia Matilda - Ilhas Cayman.

Milho verde - Milhões de dólares.

Pamonhas - Milhões de reais.

Canjica - Milhões de euros.


Como em "Mandei duas canjicas para a tia Helga" ou "Recebi uns milhos verdes da tia Matilda", ou "Estou pensando em transformar os milhos verdes da tia Matilda em pamonhas para a mamãe, que está ótima (tradução: "para aplicar na bolsa, que está em alta"), e canjica para comer com o seu Maurício no fim do ano" ("para gastar na temporada em Saint Moritz").


Nunca se refira ao seu iate ou ao seu condomínio em Palm Beach. Diga "o meu caíque" e "a minha chácara". Nunca cite nomes reais, mesmo que eles não tenham nada a ver com o que a Polícia Federal (código: "Os mosquitos") pode estar investigando a seu respeito. Use pseudônimos.


Lula - Ele.

José Dirceu - Zeca Pagodão.

Fernando Henrique - Nando.

Heráclito Fortes - Formosura.

Naji Nahas - Levantino

Eike Batista - Leva-tudo

Papa Bento XVI - Alemão

Etc., etc.


Nunca fale em "propina" (prefira "motivação"), nunca se gabe dos congressistas de todos os partidos que tem no bolso (melhor comentar que apoia o pluralismo democrático) e em hipótese alguma encomende vinhos, enlatados e um novo “home theater" pelo telefone sem explicar que é para o cachorro.


É claro que também é preciso se precaver contra o risco das coisas mais inocentes parecerem código, e você ser incriminado pelo mal-entendido.

- Mas eu tenho uma tia chamada Helga, delegado.

- Claro, claro. E manda canjicas para ela todos os meses.

- Mando mesmo. Para Camaquã.

- Rá! Um óbvio código para Cayman.

- Não, não, delegado. É uma cidade no interior do...

- E este trecho da gravação em que se planeja a participação do seu grupo financeiro na venda do Brasil para um consórcio espanhol?

- O quê? Isso era eu lembrando à minha mulher que nós estamos devendo pro espanhol da feira!

- Tá. Contra outra.


Domingo, 27 de julho de 2008.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.