Potro
Cláudio Moreno
Segunda-feira, à noite, fui ao Unibanco Arteplex para assistir à pré-estreia do emocionante Nada Vai Nos Separar, filme que o Saturnino Rocha, o Luís Augusto Fischer e o Giba Assis Brasil (direção, roteiro e montagem, respectivamente) fizeram para celebrar o centenário do Internacional. Ao me dirigir ao estacionamento, ainda sob o efeito encantador das duas horas que tinha passado no cinema (o Inglês tem uma belíssima palavra para isso, afterglow, definida como "a sensação agradável que se mantém, ainda por algum tempo, após uma experiência prazerosa") literalmente esbarrei num jovem vizinho que as vezes me visita. "Amanhã eu dou uma chegadinha na sua casa, professor! Têm uma palavra no Saramago que não consigo achar no dicionário!". Sei que este “dicionário” a que ele se refere é uma daquelas edições escolares, quase de bolso, em que raramente consegue encontrar o que precisa, mas assim mesmo aceito de bom grado suas consultas; afinal, o simples fato de ler autores brasileiros e portugueses já o torna merecedor de toda a ajuda eu puder prestar...
No dia seguinte, lá veio ele com o Memorial do Convento e o seu precário dicionariozinho. "É aqui, professor: este potro!" - e mostrou, com o dedo, a linha em que se lia “só de pensar nisso sofre como se o estivessem a apertar no potro". Abriu o pequeno dicionário e localizou o verbete: "Aqui diz que é um filhote de cavalo com menos de quatro anos. Apertar? Não faz sentido nenhum!". Em vez de responder (uma vez professor, sempre professor!), apontei para o robusto exemplar do Houaiss que mantenho sempre à mão e mandei-o pesquisar os demais significados do vocábulo. Eu tinha de terminar um trabalho, disse eu, mas ele podia ficar ali até esclarecer sua dúvida.
Desconfio que este jovem, como muitos alunos meus, não conheça a ordem alfabética de cor, pois apoiou o grande volume no colo e disfarçadamente começou a folheá-lo, meio ao acaso, até atinar com a letra P. Depois, foi olhando página por página até chegar finalmente ao verbete procurado, que leu com inegável concentração - na verdade, leu e releu.com a testa franzida, acompanhando linha por linha com o dedo. Alguma coisa tinha saído errado, pois ele se animou a interromper o que eu estava fazendo para me mostrar o dicionário: “Continua sem sentido, professor. Olha só: ele dá potro como cavalo macho com menos de um ano de idade, ou cavalo novo, ainda não inteiramente domado". Olhei-o com a complacência que nos inspiram os tardos de espírito; um dicionário consistente como o Houaiss, pensei, jamais deixaria de registrar que potro também era o nome de um daqueles piedosos instrumentos que a Santa Inquisição utilizava para convencer os hereges a aderir à verdadeira fé (Manuel Tomás, em seu poema épico Insulana, de 1625, enumera, entre outros, “tormentosos garfos, grelhas de fogo, chumbos derramados, torcidos ganchos, potros espantosos, tenazes quentes"). Para não perder mais tempo, fui eu mesmo olhar o verbete e lá constava, como eu supunha, a terceira acepção do termo, mas indicada de forma tão sucinta e obscura que pude culpar o vizinho por não saber interpretá-la: "m. q. ecúleo". Tive de explicar-lhe, então, com paciência, que sendo "m.q.”, neste dicionário, a abreviatura de “o mesmo que”, o verbete estava informando que potro pode significar o mesmo que ecúleo, vocábulo da família do equus latino (de onde veio a égua, o equino e a equitação) e que, por sua vez, designa “espécie de cavalo de madeira em que se torturavam os acusados".
Visivelmente interessado perguntou como se poderia torturar alguém sobre uma estátua de cavalo - e lá fui eu de novo, mostrando-lhe que este não era um desses cavalos dos monumentos equestres, mas algo parecido com um cavalete, sobre o qual ficava uma prancha cheia de furos por onde passavam cordas e correias. Ali deitavam o condenado ao suplício e amarravam seus braços e pernas em torniquetes, apertando-os até os ossos se desconjuntarem. Era a essa máquina infernal que se referia o texto de Saramago, que agora passava a ter sentido: "sofre como se o estivessem a apertar no potro". E, já que eu estava ensinando, fui abrindo o Houaiss aqui e ali, mostrando que o termo potro provavelmente tinha vindo do Latim pulliter ou pullitru, "cavalo jovem", derivado de pullus, termo genérico para "filhote de animal" e que passou a ser usado apenas com relação a aves - de onde vem a poule do Francês, o pollo do Espanhol, o polo do Italiano e o nosso antiquado polo, que cedeu lugar ao atual frango, não antes de nos deixar o derivado poleiro Pronto! Encerrei a entrevista e o acompanhei até a porta, aproveitando para perguntar se, depois de tudo aquilo, ele ainda se contentava com seu pequeno dicionário. “Claro que não", disse ele. "Não dá para confiar! Menos de quatro anos! Pois se nem a idade do bicho ele acerta!". Como dizia Millôr, pano rápido!
Sábado, 22 de agosto de 2009.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.