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Porquinho-da-índia

Cláudio Moreno

A pedido de duas leitoras, ambas professoras, esta coluna trata da origem de duas palavras - porquinho-da-índia e anfitrião - que passariam despercebidas no meio das outras se não tivessem despertado a infinita curiosidade infantil. Sobre a primeira, Susana W, de Porto Alegre, relata uma curiosa experiência: numa turma de segunda série, ela leu O porquinho-da-índia, conhecido poema de Manuel Bandeira, e pediu aos pequenos alunos que criassem uma ilustração relativa ao que tinham acabado de ouvir. Sendo típicas plantinhas da cidade, esses brasileirinhos nunca tinham visto um porco vivo, muito menos um chiqueiro de verdade, mas conheciam o filme Babe, o porquinho atrapalhado, e não tiveram dúvida: para surpresa da professora, uns desenharam um leitãozinho, enquanto outros fizeram colagens variadas com recortes de revista com cenas do próprio filme. Em respeito a Bandeira, Susana sentiu que tinha de desfazer o equívoco, mas, como ela própria confessa, "a solução que encontrei tinha pouco de Brasil e muito de Walt Disney, pois na hora só me ocorreu dizer que o bichinho era mais parecido com um hamster do que com o Babe. Eles entenderam a comparação, mas fizeram a pergunta inevitável: então, por que se chama porquinho?.

Olha, Susana, confesso que eu também fiquei surpreso no dia em que soube que o porquinho-da-índia não é porco, nem veio da Índia. As enciclopédias ensinam que ele é um roedor, primo da preá, da cutia e da capivara, natural da América do Sul - mais especialmente, dos Andes peruanos, onde é chamado de cuy. Ele já era domesticado pelos indígenas muitos séculos antes da chegada de Colombo, que o criavam para comer, como nós às galinhas (quem tiver curiosidade, encontrará várias receitas de cuy frito, assado e ensopado aqui: http://tinyurl.com/2chm73s). Juntamente com o sagui, a arara e o papagaio, o cuy foi levado para a Europa como um animalzinho de estimação dos ricos e dos nobres.

O nome de porco que lhe foi dado talvez se deva ao ruído que emite, que se assemelha a um leitão coinchando baixinho ou quiçá ao hábito renascentista de usar porco como uma designação genérica para mamíferos estranhos ou desconhecidos; basta lembrar o porco-espinho, nome dado ao ouriço, e o porco-formigueiro, um curioso comedor de formigas do continente africano, que sempre me intrigou por ser o verbete inicial de muitos dicionários e enciclopédias em Inglês, que o denomina de aardvark. Quanto à Índia, não podemos esquecer que o continente americano, durante muito tempo, era chamado erroneamente de Índias Ocidentais (daí os nativos terem recebido o nome de índios); isso fica bem evidente em outras línguas além do Português, pois ele é chamado de porcellino d'lndia (porquinho da Índia), em Italiano; de cochon d'Inde (porco da Índia), em Francês; e de conejillo de India (coelhinho da Índia), em Espanhol. Os ingleses, que dirigem pelo lado errado da estrada, chamam-no de guinea pig (porco da Guiné), mas as razões para isso são discutidas até hoje.

A professora fez bem em explicar o que é um porquinho-da-índia; é necessário conhecer esse detalhe para que o texto do poema de Bandeira seja captado em todo o seu sentido. Embora um leitão não seja exatamente um animal feio, é melhor que os jovens leitores pensem num animalzinho mimoso, tímido e arisco, exatamente como o poeta o descreve: "Quando eu tinha seis anos /Ganhei um porquinho-da-índia. /Que dor de coração me dava /Porque o bichinho só queria/ estar debaixo do fogão!".

A outra leitora, professora em Santa Maria, quer saber se podemos afirmar que anfitrião é uma palavra oriunda da mitologia grega. Sim, podemos: Anfitrião era o marido de Alcmena, que exigiu, para que o casamento se consumasse, que ele vingasse a morte de seus irmãos. Enquanto ele está longe, Zeus assume sua aparência e se apresenta a Alcmena, que o recebe carinhosamente, acreditando ser o marido que voltou. Zeus faz aquela noite durar três vezes mais, a fim de gerar o herói perfeito, que vem a ser o forçudo Héracles (ou Hércules, como preferimos chamar, à moda latina).

Quando Anfitrião volta, estranha a recepção quase fria de Alcmena e vai perguntar ao adivinho Tirésias o que poderia ter acontecido. Ao saber da “visita" de Zeus, aceita a "honra" e cria Hércules como se fosse seu filho. Por tudo isso, o nome anfitrião passou à linguagem comum como aquele que recebe um hóspede ou um convidado... Além disso, Anfitrião tem um criado fiel, que o acompanha por toda a parte, chamado Sósia. Plauto, o grande autor da comédia romana, faz o verdadeiro Sósia voltar a tempo de encontrar o falso (que era o deus Hermes, que sempre acompanhava Zeus em suas aventuras), e tira daí uma cena hilariante, em que ele olha, incrédulo, seu outro eu. É daí que vem o uso de sósia para designar a que tem a mesmíssima aparência de outra. Ah, outra coisa: Guilherme de Figueiredo escreveu uma versão brasileira do Anfitrião, com o sugestivo título de Um Deus Dormiu lá em Casa.


Sábado, 18 de dezembro de 2010.



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