Pleshette
Luis Fernando Verissimo
Alô. Entre. Tome este Martini seco. Sou famoso pelos meus Martinis secos. Um bom Martini seco depende da correta mistura do gin com o vermute. O meu é sequíssimo. Meu segredo é tomar o gin puro só pensando no vermute. Uso sempre um twist de limão siciliano na taça. Existem várias escolas. Alguns preferem uma azeitona, outros uma cebolinha, e alguns degenerados - americanos, claro - uma cereja. Eu uso o limão clássico. Sempre digo que não existe nada para começar uma noite, uma conversa, uma amizade como um Martini seco. A partir de um Martini seco, quem sabe o que pode acontecer? Veja o nosso caso. Não nos conhecemos, mas já estamos nos brindando com um sequíssimo e civilizadíssimo Martini. Lançamos a noite como um transatlântico, não com uma garrafa de champanhe quebrando no casco mas com o tilintar de dois copos de...
Não. Melhor deixar o papo do Martini para depois.
Abro a porta e digo:
- Alô. Entre. Pleshette, não é? Fiquei intrigado com seu nome. É o nome de uma atriz muito bonita, mas você certamente não a conheceu. Não tem idade para isso, O que a fez escolher esse nome? Ou é seu nome de verdade? Não se preocupe, não vou pedir sua biografia. Sei que vocês, você, não gostaria disso. Mas achei que seria uma maneira de nos conhecermos, de começarmos a conversa. Por que Pleshette? Foi o que me atraiu no seu anúncio. E também o “gostos sofisticados”. Esses anúncios às vezes são muito engraçados. Lembro de um que dizia “amor sem demagogia”. Não imagino o que seria o tal “amor sem demagogia”. Mas seu anúncio me intrigou. Uma Pleshette, com gostos sofisticados. Sei que vamos nos dar muito bem. Mas sente-se, por favor. Aceita um Martini seco?
Não.
Abro a porta sem dizer nada. Com um sorriso triste, é isso. Sou um homem amargurado, descrente e tudo. Ou de quase tudo. Ainda busco um relacionamento significativo que pode começar - por que não? - num encontro como aquele. Ela precisa saber, só pela minha cara, que aquele não será um programa comum. Que eu não sou apenas um cliente a mais. Que podemos terminar a noite abraçados, despejando nossos corações no meu lençol, depois - ou mesmo em vez - do sexo.
- Pleshette, isso nunca me aconteceu antes.
- O quê, estar com uma mulher?
- Não. Abrir meu coração deste jeito.
- Eu também. Nunca.
- Será que isso vai virar outra coisa?
- Sim, sim. Será uma loucura, mas sim!
E brindaremos nosso novo amor com Martinis secos.
Não.
Abro a porta e digo “Pleshette, não é? Olha, esta é a primeira vez que faço isso, não sei bem como...”.
Epa. A campainha da porta. É ela.
- Alô. Entre. Aceita um Martini seco? Sou famoso pelos meus...
- Não, cara. Vamos logo pro quarto que eu não tenho muito tempo. E por aqui?
Domingo, 6 de dezembro de 2009.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.