Paula
Luis Fernando Verissimo
Depois de casarem o último dos seus cinco filhos, Paula contou para o marido que o encontro deles não tinha sido casual, como ele pensava.
- Que encontro?
- O nosso. Há 50 anos.
- Eu sempre desconfiei que você tinha planeja do tudo, para me fisgar - disse o Osmar, rindo.
Mas Milena estava séria.
- Não planejei nada. Planejaram por mim.
- Quem?
- Eu tinha ordens para me infiltrar na sua vida. Casar com você, se fosse preciso. Acompanhar você em tudo, me informar sobre todas as suas atividades e passar a informação para eles.
- Eles quem?
- Meu casamento com você não foi um casamento, Osmar. Foi uma missão.
Osmar começou a rir de novo. Parou quando viu que Paula continuava seria.
- Mas Paula, você sempre foi uma esposa perfeita. Perfeita!
- E você nunca desconfiou disso? Uma mulher que fazia todas as suas vontades? Que nunca contrariou você em nada? Uma mulher perfeita? Eu estava apenas protegendo meu disfarce.
- Mas... E os nossos cinco filhos?!
- Sempre que eu desconfiava que você estava perdendo o interesse em mim e no nosso casamento, engravidava. Para não comprometer a missão.
- Você também foi uma mãe perfeita!
- Sou uma boa profissional.
- Como você mandava a tal informação?
- A principio, fazia relatórios escritos e deixava em locais predeterminados. Depois comecei a registrar tudo eletronicamente neste aparelhinho que eles me deram.
- Quer dizer que você nunca foi surda desse ouvido?
- Sempre ouvi perfeitamente dos dois. Gravava tudo, depois colocava a fita no local que tinha combinado com eles.
- Mas “eles” quem?!
- Pois é.
- Como, “pois é”?
- Eu não lembro mais quem eram eles. Na última vez que levei uma fita para o tal lugar secreto, a fita anterior não tinha sido recolhida. A tal missão deve ter sido desativada e não me avisaram.
- Você não se lembra para quem trabalhava?
- Não.
- E o que eles queriam saber a meu respeito?
- Também não me lembro.
- Paula, Paula...
- Bom, pelo menos educamos os nossos filhos. Estão todos casados e bem encaminhados na vida...
- Missão cumprida.
- Missão cumprida.
- Boa noite. Paula.
- Juraci.
- O quê?
- “Paula” era codinome.
OXIMORO
(Da série “Poesia numa hora dessas?!”)
Oximoro é uma frase que se contradiz como silêncio eloquente, ilustre desconhecido fogo amigo e inimigo fiel. Ou, claro Coco Chanel.
Domingo, 21 de fevereiro de 2010.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.