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Náufragos

Luis Fernando Verissimo

Há muitas histórias de náufragos inventadas e verdadeiras. A mais famosa das inventadas, a do Robinson Crusoé, parece que foi baseada numa verdadeira. De qualquer jeito, para uma história de náufrago só é preciso um naufrágio e uma ilha. Os náufragos podem ser um só, como o Robinson, dois, como o casal de Lagoa Azul, ou muitos, como a família suíça de outra famosa história inventada. O maior fascínio das histórias de náufragos está na descrição do simples processo de sobreviver na privação, ou do poder da engenhosidade humana diante da Natureza indiferente ou hostil. Nos colocamos no lugar do náufrago e imaginamos como seria nos alimentarmos, nos protegermos e não enlouquecermos, sozinhos numa ilha deserta. Pois no fim todas as histórias de náufragos são sobre a solidão, sobre a falta do próximo e a distância dos outros. Há, inclusive, histórias de náufragos que dispensam a ilha. Mas as que eu vou contar são histórias de náufragos clássicas. De náufragos insulados. Começando com a história do náufrago que enriqueceu da noite para o dia.


Contam que um homem sobreviveu a um naufrágio e acabou numa ilha deserta, e lá viveu durante 40 anos, até morrer. Os primeiros 20 anos foram os piores. Quando não estava ocupado procurando comida e tratando de se abrigar do sol, da chuva e do vento, quando não tinha mais o que fazer a não ser pensar e lembrar, pensava na vida que levara e lembrava tudo o que perdera. Pensava na sua dura vida de marinheiro, pensava na mulher fiel que o ajudava a enfrentar a dureza da vida e sempre o esperava no porto, pensava na sua casa modesta, pensava nos vizinhos e nos amigos, pensava nas coisas simples que nunca mais veria, e chorava, chorava muito.

Antes de dormir, ao pôr-do-sol, o homem imaginava o que estaria fazendo se ainda estivesse com a sua mulher fiel na sua casa modesta, ou com os vizinhos e amigos, na sua simplicidade. E assim se passaram 20 anos de recordação e tristeza. E então, certa manhã, depois de uma noite de vendaval, o homem viu que o vento tinha derrubado uma árvore da ilha, e que no buraco deixado pelas raízes arrancadas havia um tesouro. Um grande baú cheio de moedas de ouro e joias, certamente enterrado por algum pirata que nunca voltara para busca-lo. Da noite para o dia, o náufrago tornara-se um milionário. Talvez um bilionário, ou um trilionário. Para que perder tempo calculando a fortuna? Havia o suficiente no baú para ele levar uma vida de rei. E a partir daquele momento, e pelos 20 anos seguintes, o homem imaginou tudo o que poderia fazer com a fortuna depois de abandonar a mulher, que não era mulher para um milionário, e o vizinhos e amigos, que só o importunariam com pedidos de dinheiro, e a sua casa modesta, e a sua dura vida de marinheiro. Mal podia esperar o pôr-do-sol, para imaginar a sua vida de rei – ou quase rei, pois decidira que compraria dois títulos de nobreza, um para ele e outro para a Gisele, sua nova esposa. E dormia sorrindo.

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Também tem a história do navio que naufragou e só se salvaram o capitão e um maquinista, que nunca tinham se visto a bordo. O capitão vivia na ponte de comando, e o maquinista nunca saía do porão.

Ainda na praia da ilha deserta, o maquinista perguntou:

- Era o senhor que gritava pelo interfone “Mais força, mais força, seus ratos preguiçosos!”?

- Não, não – respondeu o capitão. – Era o imediato.

Mesmo assim, os primeiros 20 anos foram tensos.

flor

Três náufragos: um arquiteto, um engenheiro e um banqueiro. Depois de secarem a roupa, examinarem a ilha deserta e escolherem o lugar onde construirão uma cabana, decidem distribuir as tarefas.

- Eu planejo a cabana – diz o arquiteto.

- Eu faço os cálculos e escolho o material – diz o engenheiro.

- Eu financio a obra – diz o banqueiro.

O arquiteto e o engenheiro se entreolham.

- Como, financia? – pergunta o arquiteto.

- Com que dinheiro ? – pergunta o engenheiro.

- Bom... – começa a dizer o banqueiro, olhando em volta. – Estas conchas podem servir como dinheiro e...

Mas desiste diante do olhar dos outros dois. E põe-se a trabalhar erguendo a cabana, enquanto o arquiteto e o engenheiro, sentados na praia bebendo água de coco, dão palpites. E risadas vingativas.

Está história tem outra versão em que, além do arquiteto, do engenheiro e do banqueiro, também dá na praia um filósofo. O diálogo é o mesmo até o banqueiro sugerir que as conchas podem servir como dinheiro. Diante da reprovação do arquiteto e do engenheiro, o filósofo intervém:

- Mas é perfeito. Vocês não veem? Propondo usar conchas em vez de dinheiro, ele está dizendo que o dinheiro é, na verdade, uma mentira, ou apenas uma concha supervalorizada. Em termos absolutos, nada tem mais valor do que nada, o valor dado a qualquer coisa é apenas a retificação de um conceito abstrato determinado por uma hierarquização subjetiva arbitrária enquanto...

O filósofo para quando se dá conta da maneira como os outros três estão olhando para ele. E põe-se a trabalhar, erguendo a cabana, enquanto o arquiteto, o engenheiro e o banqueiro, sentados na praia bebendo água de coco, dão palpites. E risadas superiores.


Domingo, 8 de setembro de 2002.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.