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Neologismos

Cláudio Moreno

PALAVRAS NÃO SE INVENTAM. Estão apenas lá, fardadas, esperando para entrar no jogo

Nosso léxico é tão fecundo que dá mais do que o proverbial chuchu na cerca dos nossos antigos quintais. Este é um fato da vida, caro leitor: vocábulos novos nascem em toda parte, a toda hora, num ritmo cada vez mais acelerado, e não podemos fazer nada contra isso, pois é dessa maneira que nossa língua se expande incessantemente, tornando-se um instrumento de expressão cada vez mais rico e preciso.

Para mostrar como isso funciona, reúno nesta coluna duas perguntas sobre os fundamentos da criação lexical. A primeira vem de Fernando P., um antigo aluno, que quer saber por que pescar deu pescaria, se repescar deu repescagem. “Por que não é pescagem?”. As razões são duas. Em primeiro lugar, porque não existe simetria necessária na formação dos derivados, em nossa língua. O ato de congelar é congelamento (no Brasil) e congelação (em Portugal) – mas o de degelar é degelo (nem “degelamento”, nem “degelação”; isso é normal).

Em segundo lugar, porque existe pescagem, sim. Pescaria é uma atividade em que se vai em busca de peixe; pescagem é o “ato de pescar”, como em “Esta máquina automática de vendas vem equipada com um dispositivo antipescagem das cédulas”. Hás de concordar comigo que numa frase como “No próximo domingo a cidade comemora a pescagem da imagem santa das águas do rio”, o emprego de pescaria chega muito perto do ridículo.

O outro leitor, Daniel K., quer saber se é correto utilizar a palavra contação para designar o ato de narrar histórias. “Essa invenção não seria um neologismo desnecessário?”. Sim, Daniel, é correto. Assim funciona uma língua viva: precisávamos de um substantivo que exprimisse o ato de receber algo (valores, objetos, etc.): nasceu recebimento; depois, sentiu-se a necessidade de um substantivo que exprimisse o ato de receber alguém: nasceu recepção. Da mesma forma, precisávamos de um substantivo que exprimisse o ato de contar vários itens: surgiu contagem. Depois, sentiu-se a necessidade de um substantivo que exprimisse o ato de contar histórias: surgiu contação. E assim o Português vai crescendo.

Como podes ver, chamar de neologismos essas criações naturais do idioma pressuporia um observador situado num ponto fixo no tempo, a partir do qual ele pudesse determinar o que é novo e o que não é. Ora, em questões de linguagem, como disse o velho Jorge Luis Borges, zombeteiro, o novo de hoje sempre será o velho de amanhã... Contação pode parecer novidade a nossos ouvidos, mas torna-se cada vez mais comum e, com certeza, será palavra antiga para nossos netos.

Além disso, não se pode dizer que uma palavra como essa foi “inventada”. Inventa-se uma máquina de debulhar milho ou um motor movido a hidrogênio, mas não uma palavra. Ela está lá, a postos, já fardada, esperando entrar no jogo assim que a necessidade a convoque. Dito de outra forma, numa metáfora mais ecológica: as palavras de uma família lexical pertencem a uma árvore que já está pronta, virtualmente, cujos galhos e rebentos irão brotando numa ordem espontânea, à medida que formos precisando deles.


Sábado, 18 de julho de 2015.



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