Namorados
Luis Fernando Verissimo
- Eu...
- Queria me dizer uma coisa?
- É. Acho que...
- Esta nossa relação não vai dar certo?
- Isso. Eu simplesmente não...
- Aguenta mais?
- Exato. Esse seu hábito de...
- Terminar a frase dos outros?
- É. É! Eu tentei, mas...
- Não consegue?
- Não consigo. Não é nada...
- Contra mim? É só porque eu termino as suas frases?
- É. Por que você...
- Faço isso?
- É. Sempre termina a...
- Frase dos outros? Porque eu já sei o que vocês vão dizer. Você é o quinto ou sexto namorado que me diz a mesma coisa.
- Quer dizer que nós nos tornamos...
- Previsíveis? Se tornaram.
- Todos reclamam...
- Da mesma coisa? Reclamam.
- Bom, então é...
- Tchau?
- É.
xx -- xx -- xx
- Eu não sei o que dar para o meu namorado.
- Dá uma suéter.
- Não sei se ele usa. E de que cor ele prefere.
- Dá uma loção.
- De que tipo? Não sei o gosto dele.
- Uma garrafa de vinho.
- Não sei se ele é do tipo que bebe vinho.
- Um livro.
- Será que ele lê? Acho que ele não lê.
- Então manda só um cartão. "Para o amor da minha vida..." Como é mesmo o nome dele?
- É... Espera um pouquinho... Sei que começa com "D".
xx -- xx -- xx
"Para a minha Chuchuquinha do seu Cacão", dizia o cartão que acompanhava o presente que o Oscar mandou para a Diana. A Diana recebeu o Oscar com um beijão e um abraço apertado.
- Eu sou a sua Chuchuquinha, sou?
Oscar sentiu um vazio na barriga. Meu Deus do céu, troquei os cartões! Mandei o cartão da Aline para a Diana.
- E você é o meu Cacão, é?
Oscar improvisou.
- Não sou? Não sou?
- É. Mas por que eu sou "Chuchuquinha"?
- Não sei. É esse seu rostinho. Decidi que você tem cara de "Chuchuquinha".
- Amei. Agora só quero que você me chame assim, em vez de Dindinha. E eu só vou chamar você de Cacão em vez de Oscarzinho.
E Diana deu outro beijo apaixonado no namorado. Que, no meio do beijo, se lembrou de uma coisa: se o cartão da Aline tinha ido para a Diana, o cartão da Diana tinha ido para a Aline! E penso: minha Nossa Senhora.
Aline não o recebeu com um beijão e um abraço apertado. Recebeu desconfiada. Com o cartão nao mão.
- Quem é "Dindinha"?
- Ué. É você.
- Desde quando você me chama de "Dindinha"?
- Não chamo. Mas decidi que você tem, sei lá, cara de "Dindinha". Agora só vou chamar você de "Dindinha".
- Por quê?
- Ora, por quê. Porque as pessoas dão apelidos às outras? Essas coisas não têm lógica. Eu chamava você de "Chuchuquinha" porque achava que você tinha cara de "Chuchuquinha".
- E não acha mais? Agora me acha com cara de "Dindinha"?
- Ih, já vi tudo. Você está querendo mudar de assunto porque não gostou do presente.
- Gostei do presente, Cacão. Mas...
- Oscarzinho.
- O quê?
- Oscarzinho. Prefiro que você me chame de Oscarzinho.
- Você nunca gostou do "Cacão", não é?
- Não é isso. É que... Está bem. Vou continuar chamando você de "Chuchuquinha".
- Agora eu não quero mais.
- Por quê?
- Porque não seria sincero. Entendeu? "Chuchuquinha" forçado eu não quero. Seria pior que "Dindinha".
Oscar suspirou. Por que aquelas coisas aconteciam com ele? Só porque trocara os cartões, tinha que passar por aquilo? Ele não merecia. Era um namorado atencioso. Um namorado que mandava presentes no Dia dos Namorados, com cartões carinhosos. Bons presentes. Melhores do que os que dava para a própria mulher. Que lhe servisse de lição.
xx -- xx -- xx
- Foi neste quarto. Exatamente neste quarto.
- Você está doido.
- Aposto o que você quiser.
- O quarto estaria o mesmo, tanto tempo depois?
- Algumas coisas mudaram, mas olha a vista. A vista é a mesma.
- Como você sabe? A última coisa que queria fazer, naquele dia, era olhar a vista.
- Acho que eu estou me lembrando até do número. Era o 703. Tenho certeza.
- Tá sonhando.
- Lembra que você trouxe uma sacola com pijama? Achei aquilo maravilhos. Em vez de uma camisola, ou de nada, um pijama de flanela azul.
- Que no fim eu nem usei.
- Tomamos banho juntos, lembra? Antes e depois.
- Foi a primeia vez que vi você nu. E quis me casar assim mesmo.
- Olha o banheiro. Igualzinho. Era o 703!
- Que ideia, vir para o mesmo hotel, tantos anos depois...
- E acabar no mesmo quarto! O que você está fazendo?
- Ligando pra casa. Pra ver se está tudo em ordem.
- Não vá dizer onde nós estamos.
- Vou. vou dizer "Olha, seu pai quis passar o Dia dos Namorados no mesmo hotel em que dormimos juntos pela primeira vez".
- Você trouxe os meus remédios?
- Trouxe. Estão na sacola, junto com os meus. Aliás, na sacola só tem remédios.
Mais tarde:
ELA - Você não vem pra cama?
ELE - Já vou. Estou olhando a vista.
Domingo, 13 de junho de 2004.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.