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Mãe

Luis Fernando Verissimo

Eu sei, eu sei. O dia delas é em maio, e não há nenhuma razão especial para escrever sobre a mãe hoje, mas alguém se opõe? O bom de escrever sobre mãe é que ninguém pode ser contra.

A origem da palavra, aparentemente, é uma só. Em latim mãe é “mater”, em grego é “meter”, em alemão “mutter”, em inglês “mother”, em sânscrito “ma” ou “mata”, e tudo deve ter começado por um dos sons fundamentais da espécie, que é o do bebé pedindo para mamar. A razão da identificação universal do som “m” com a mãe e a mama da mãe é um daqueles segredos que só os recém-nascidos poderiam revelar, mas eles não falam. Ou falam mas a gente não entende.

Somos “mamíferos” por um determinismo fónico, e quer você seja irlandês (“mathai”) ou russo (“mat”) chamava sua mãe ou pedia seu peito da mesma maneira, ou quase.

Do latim “mater” veio, além de “mãe”, “madre”, “mére” e a sequência “matriz”, “matrimónio” e “maternidade”, ou, de uns tempos para cá, “maternidade” e depois “matrimónio”. Do grego “meter” veio, entre muitas outras coisas, “metrópole” (cidade-mãe) e “metropolitano”. Da próxima vez que estiver dentro de um metrô, portanto, você pode comparar esta experiência com a de estar dentro da sua mãe e concluir que dentro da mãe estava mais confortável mas não podia descer onde quisesse.

“Mater” também é a origem de “matéria”, coisa sólida. O tronco do qual nós somos os ramos, a madeira da nossa árvore genealógica. Você que adora ambientes forrados com madeira, que os acha aconchegantes e até maternais, só diz isso porque a madeira não é da sua mãe.

“Matriz” é uma forma, um molde - como o ventre materno. “Matrix”, em latim, era uma fêmea reprodutora, e até hoje se usa “matriz” neste sentido na pecuária. “Matriz” também é a mãe das igrejas. Nos templos da Igreja Católica, a “Mater Ecclesia”, a parte central se chama “nave”, que pode vir do grego “naus” ou do latim “navis”, já que uma das conotações simbólicas da Igreja é a barca das almas, a arca da salvação, mas também pode ser do sânscrito “nabbhis”, de onde vem o inglês “navel” ou o popular “umbigo”. De qualquer maneira, tem mãe no meio.

Viva elas, portanto. Se não fossem elas, não estaríamos aqui. Pois não há um entre nós que não seja um pequeno, um médio, um grande ou um grandessíssimo filho da mãe.


Domingo, 8 de março de 2009.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.