Memórias
Luis Fernando Verissimo
“Fala, memória” foi o título que Vladimir Nabokov deu às suas lembranças da infância em Saint Petersburg, das férias da família em Biarritz, dos seus dias de estudante em Cambridge e da sua vida de exilado na Europa, até se mudar para os Estados Unidos. A primeira versão foi escrita quando Nabokov tinha escasso acesso a datas, anotações e documentos do período evocado, e o título denuncia uma certa impaciência do autor com a sua própria capacidade de lembrar. Um ponto de exclamação – “Fala, memória!” – está implícito, e pode-se imaginar que Nabokov só não agarrou sua memória pelo pescoço e a sacudiu, gritando “Funciona, desgraçada!” porque isto seria uma impossibilidade anatômica. Quem nunca tentou lembrar de alguma coisa apertando a cabeça com a ponta dos dedos, esquecendo que “espremer o cérebro” é uma frase puramente figurativa, já que o cérebro não é um limão? Quando ficamos mais velhos, a tentação de fazer o cérebro funcionar manualmente – socos na testa, etc – aumenta, e há casos extremos de pessoas que batem a cabeça na parede para soltar uma lembrança emperrada. Arriscando-se a perder todas as suas memórias. O desespero é maior nos fins de ano, quando é preciso fazer retrospectivas e as lembranças não vêm, agravando o fato de que a cada fim de ano estamos um ano mais velhos.
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O tsunami foi no fim de 2004, mas a morte do papa foi em 2005, certo? A primeira denúncia sobre o mensalão foi em que mês, mesmo? E o furacão em Nova Orleans? Fala memória, pô. Não sei se acontece com todo mundo, mas minha experiência com meu cérebro é que ele se torna cada vez mais retroativo. Pergunte a ele o que eu almocei hoje, e ele não saberá dizer. Agora, pergunte qual era o time do Botafogo em 1948. Me pediram uma lista dos dez melhores filmes que vi em 2005 e não adiantaram os socos na testa, ameaça de britadeira, nada. Meu cérebro só forneceu dois, e de má vontade. Mas a lista de 1960 estava pronta. Eu entendo. Ele está se protegendo. Se ele soubesse o que significa, diria que esta rejeitando inputs para evitar overloading e um flame-out do sistema, mas a ideia é esta, a recusa de registrar novas informações que ameacem as lembranças do passado, essa tranquila terra de coisas estabelecidas a salvo do esquecimento. Não aprovo, mas entendo.
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Nada a ver com nada, e principalmente nada a ver com 2005: Vladimir Nabokov, como Albert Camus, também foi goleiro. A diferença entre os dois é que Camus disse que aprendeu mais sobre a vida no gol do que em qualquer outra atividade, enquanto Nabokov conta que no gol só foi feliz. E nem sempre. Em Fala, memória, ele lembra sua experiência de jogos em Cambridge “sob céus lúgubres, com a área do gol uma massa de barro negro, a bola escorregadia como um pudim, e a minha cabeça torturada pela nevralgia depois de uma noite insone fazendo versos”. Felicidade era quando a bola estava longe do seu gol e “com braços cruzados, eu me encostava na trave esquerda e desfrutava o luxo de fechar os olhos e ouvir meu coração batendo, sentido o chuvisco no rosto, ouvindo, na distância, os ruídos fragmentados do jogo e pensando em mim mesmo como um fabuloso ser exótico disfarçado de jogador inglês, compondo versos numa língua que ninguém entendia sobre um remoto país que ninguém conhecia”. E Nabokov arremata: “Não admira que eu não fosse muito popular com meus companheiros de time”.
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As memórias, de um jeito ou de outro, acabam falando, mesmo laconicamente. Algumas só falam melhor do que outras.
Domingo, 1º de janeiro de 2006.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.