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Melange

Luis Fernando Verissimo

Os 10 países do leste que acabaram de entrar na União Europeia trazem alguns temores novos para os atuais membros, já escaldados com o problema da imigração - e revivem algumas fobias antigas. Por exemplo: os ciganos, ou "os outros judeus" como eram chamados na época em que os nazistas queriam eliminá-los também. Com as fronteiras abolidas prevê-se uma invasão do leste, onde as economias são mais fracas e os salários e as oportunidades menores do que na Europa já unificada, mesmo com todo o seu desemprego. E junto virão os ciganos, com toda a carga de mitos e medos que inspiram, e que não têm nada a ver com economia. O mundo gira, a história muda, as pessoas, supostamente, ficam mais práticas e racionais, mas certos pavores atávicos permanecem. E é curioso que, enquanto o fim de identidades nacionais e de pátrias em competição é vendido como o caminho da sensatez e da modernidade, ainda se discrimine, justamente por ser apátrida, um povo que há séculos simboliza o desprezo por fronteiras.

A questão dos imigrantes divide cada vez mais a Europa e é politicamente vital porque a divisão atravessa ideologias e partidos. Sindicalistas de esquerda se unem ao patriciado de direita, liberais ponderados a neonazistas boçais, na convicção de que é preciso fazer alguma coisa para estancar a invasão da Europa - ou da Grande América, a parte desenvolvida do Hemisfério Norte - pelo resto do mundo. Seja para assegurar o mercado de trabalho, as culturas endógenas ou a sobrevivência da raça branca, a onda anti-imigração é reacionária. Nega às pessoas a liberdade que tem o capital de ir e vir como bem entende e se instalar onde acha que vai se dar melhor. Mas é uma questão imune à razão e aos bons sentimentos, que só piorou à medida que a pele dos invasores foi escurecendo. Há alguns anos a migração humana na Europa era interna e branca: italianos, gregos, portugueses e espanhóis fugiam das suas respectivas crises econômicas e ocupavam a Europa mais próspera. Italianos morrendo de frio e de saudade da mama em impiedosos países nórdicos chegou a ser um bordão dramático, e cômico, do cinema da época. Os portugueses conseguiram acabar com uma das mais sólidas tradições francesas, a das concierges terríveis. Hoje é raro o prédio parisiense que não tem concierge português, ou portuguesa, em vez de francesa. (Especulação: para onde foram as velhas concierges carrancudas que dominavam a vida doméstica de uma população inteira? É assustador demais imaginá-las em algum covil de bruxas, planejando a revanche e a restauração do seu poder - ou um ataque punitivo a Portugal). Uma vez estive numa cidade do interior da Alemanha em que, para uma população de mais ou menos 30 mil, havia 39 restaurantes gregos. Esse tráfego interno diminuiu com melhores condições econômicas na Itália e na Grécia e com a absorção da Península Ibérica pela Europa mas a esta altura imigrantes legais ou ilegais de pele escura, da Turquia, da África, da Ásia, do Caribe - cujos precursores tinham sido os súditos de antigos impérios coloniais como o inglês, o francês e o holandês, vindos à metrópole como filhos bastardos para reclamar sua herança - já começavam a chegar em hordas, e a enfrentar preconceitos mais viscerais, portanto mais invencíveis. Hoje a Itália, que exportava mão-de-obra sem perspectiva, atrai imigrantes, e os recebe com variados graus de xenofobia e racismo. Os brancos do Hemisfério Norte procriam cada vez menos, a população de pele escura se multiplica, desse desequilíbrio e da luta por empregos que escasseiam crescem a reação generalizada e as ameaças fascistas. Eu, se fosse cigano, ficava onde estava.

O estranho é que, com todas as notícias da intolerância crescente, a impressão que fica no visitante - inescapavelmente superficial - é de que a nova Europa é um exemplo de bom convívio entre desiguais e de integração cultural. Em países como a França e a Inglaterra, por exemplo, os vislumbres que se tem são de uma experiência que funciona, apesar de todos os temores e ódios. Cena rápida: um grupo de colegiais em excursão no museu Tate Modern em Londres, crianças de várias cores acompanhados por uma professora de ainda outra cor, o melange racial unificado pelo uniforme impecavelmente britânico e pelo ar entre divertido e reverencial de todos diante de um quadro moderno. Numa amostra, a sociedade possível que nenhum fascista concebe. Na França, apesar de alguns desentendimentos com a República sobre o que usar na cabeça durante as aulas, muçulmanos e outras minorias conseguem manter sua identidade cultural e ao mesmo tempo contribuir para o cosmopolitismo que deve definir a experiência europeia. Em Londres, hoje, é difícil você ser atendido, em qualquer lugar, por um inglês nato. Os sotaques variam como as caras. Claro, os estrangeiros trabalham por menos e aceitam qualquer emprego, são as leis impessoais do mercado e patrões aproveitadores, e não a harmonia universal, que explicam a cacofonia. Mas que não deixa de ser admirável. O sotaque hoje é a língua comum da Europa.

Nos recomendaram o pub mais tipicamente londrino de Londres, o Red Lion, em Mayfair. De fato, não podia ser mais típico. A começar pelos dois atrás do balcão, tirando o chope nunca bem gelado. Um inglês arquetipal e um provável irlandês. Descobrimos que um era de São Paulo e o outro de Criciúma.


Domingo, 23 de maio de 2004.



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