Meados
Cláudio Moreno
Alguns leitores estranham que uma coluna como O Prazer das Palavras, dedicado singelamente a comentar e a apreciar as riquezas do idioma, nem sempre seja tão mansa e serena como o tema faria supor. Afinal, dizem eles, trata-se de gramática e de ortografia, e não de futebol ou política – e não há nada que justifique o ânimo agreste, quase impertinente, com que frequentemente estas poucas linhas são traçadas. Pois se enganam, amigos, que nem tudo são rosas por aqui; as questões de linguagem têm o condão de despertar as emoções mais primitivas do indivíduo, e certamente vocês ficariam surpresos com a raiva instilada em certas cartas que recebo.
Um bom exemplo foi o que aconteceu com meados. Um leitor perguntou se era verdade que a expressão em meados seria condenável, como afirmava taxativamente um de seus professores. “Ele me descontou um ponto na prova, argumentando que meado significa “meio” e só deve ser usado no singular, pois seria ilógico falarmos em meados de 2011; está certo o raciocínio?” Expliquei-lhe, então, que o professor estava desatualizado; embora historicamente o vocábulo fosse usado no singular, há quase dois séculos passamos a preferir meados, forma já empregada por escritores do porte de Machado de Assis e Eça de Queirós, e que o próprio dicionário Houaiss, no verbete meado, informa que o termo é “frequentemente usado no plural, como substantivo”.
Ao que parece, meu leitor, faceiro com a resposta, fez da minha mensagem uma capa vermelha e foi agitá-la diante dos olhos do touro – no caso, o referido professor; este, depois de escavar o chão com os patas, tomado de fúria contra mim, que era mero espectador da tourada, investiu com tudo que tinha, numa mensagem agressiva que culminava num parágrafo cheio de peçonha: “Quando você se faz escrevente de Machado de Assis, Eça de Queirós e demais escritores para justificar alguns termos considerados incorretos pelos especialistas em língua portuguesa, vem-me a crassa dúvida: esses distintos escritores ditavam as regas de nosso vernáculo ou eram meros mortais regidos pelas regras impostas pelos filólogos, lexicólogos e afins?”. Viram só o topete? Mas isso lá é jeito de entrar numa discussão acadêmica? Infelizmente eu não tenho a virtude cristã da tolerância e acabo reagindo no mesmo tom; diga-se a meu favor, porém, que nunca cito o nome desses malcriados, pois acho que precisam ser protegidos deles mesmos. O que segue é a resposta que ele recebeu.
“Mas que raciocínio arrevesado, cidadão! Então o senhor não sabe que os especialistas em nossa língua são exatamente Machado, Eça, Vieira, Drummond, e não os gramáticos, filólogos e professores? Estes últimos, aliás, entre os quais humildemente me incluo, não têm direito algum de impor regras, especialmente para os escritores; seu papel neste universo é tentar entender como funciona o idioma e formular regras que descrevam esse funcionamento. Isso não significa, é claro, que o escritor tenha um toque de Midas que transforme em norma qualquer idiossincrasia de seu estilo, pois, como diz o antiquíssimo brocardo filológico, “às vezes até o próprio Homero cochila” -, mas o uso frequente de uma determinada forma por vários desses especialistas mostra ao usuário consciente uma das possibilidades do idioma.
No início, meado era usado como adjetivo (na verdade, o particípio do verbo mear, “repartir, chegar ao meio”): “ele morreu meado dezembro”, “vinho meado de água”, “círculo meado de branco e preto”. Com relação a tempo, opunha-se aos também particípios findo e começado. “Meado de setembro, começaram as chuvas” (“Findo setembro”, “Começando setembro”). A partir do séc. XIX, porém, vai se firmando o seu emprego como substantivo plural. Euclides da Cunha fala em “meados do século”. Eça fala em “meados já tépidos de março”; Aquilino Ribeiro usa “meados da Quaresma” e Machado, sempre o melhor, fala de uma senhora que “prorrogou seus belos cachos de 1845 até meados do segundo neto”. Não vejo nada de inusitado nesta pluralização, também ocorrida com fim e com começo (nos fins do verão, nos começos do século, etc.), que pode ser encontrada abundantemente em Vieira, Euclides, Eça e Machado, entre muitos outros.
Ora, quando autores deste quilate usam determinada palavra ou expressão assim, e algum professor diz só poderia ser assado, não tenho dúvida: o gajo não fez as leituras que deveria ter feito em seu curso de Letras. Se existem dezenas de exemplos no plural meados na obra dos grandes escritores, isso significa que classificá-lo de “erro” é uma asneira que só pode ser cometida por quem não os leu. Entre os caminhos que a língua portuguesa oferece, o senhor tem o direito de achar meado mais bonito ou mais lógico, mas não pode cometer o absurdo, no seu sonho onipotente, de dizer que Machado e Eça (que conhecem cem vezes mais o idioma do que todos nós) estavam errados”.
Sábado, 24 de setembro de 2011.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.