Mauritânia
Luis Fernando Verissimo
- Acho que estamos voando sobre a Mauritânia – disse a moça sentada perto da janela.
O homem sentado ao seu lado, na poltrona do meio, inclinou-se para olhar pela janela também. Só para ser cortês.
- Será?
- É um deserto só – disse a moça.
Eram as primeiras palavras que trocavam desde que o avião decolara, horas antes. O homem sentado na poltrona do corredor entrou na conversa.
- Na revista de bordo, tem um mapa que mostra a rota do avião – disse.
Mas não havia nenhuma revista de bordo à mão. Não tinham como descobrir se estavam ou não voando sobre a Mauritânia.
- Vou pedir uma revista para a aeromoça – disse o homem da ponta, apertando o botão com a silhueta da aeromoça no painel acima da sua poltrona.
- Tenho quase certeza que é a Mauritânia – disse a moça. – Ouvi dizer que a Mauritânia é só deserto. Olha o amarelo. É a cor do deserto.
O homem da ponta levantou-se para ir olhar pela janela também.
- É, pode ser a Mauritânia. Se bem que um deserto se parece muito com outro...
- Mas a Mauritânia está na nossa rota. Não está?
- Só há uma maneira de saber. Olhando o mapa. Onde estará essa aeromoça?
- Aliás... Vocês se deram conta?
Quem falara era o homem do meio.
- O quê?
- Há algum tempo que não aparece nenhuma aeromoça. Todas sumiram.
- É mesmo...
- Eu não tinha notado – disse a moça.
- Vou ver se encontro uma – disse o homem da poltrona do corredor.
E saiu a procurar uma aeromoça. Na frente do avião. Atrás. Voltou e sentou-se na sua poltrona, em silêncio. Quando falou, falou baixinho. Não queria espalhar o pânico entre os passageiros das fileiras próxima.
- Não encontrei nenhuma.
- Como pode ser isso?
- Desapareceram.
- Como, desapareceram? Pularam do avião? Pulverizaram-se?
- Não sei. Mas não encontrei nenhuma. Olhei nos banheiros. Em todos os cantos possíveis. Nada.
- Quando foi a última vez que apareceu uma aeromoça?
- Que eu me lembre, foi há mais de uma hora.
- Acho que mais do que isso.
- Meus Deus! – disse a moça.
- Eu sei o que é – disse o homem do meio. – Esse pessoal tem esquema. Todos esses aviões têm compartimentos onde os pilotos dormem. Devem estar todos, neste momento, na maior farra. Estes aviões modernos voam sozinhos, por computador. É isso. É esquema. Estão todos na maior farra.
Um homem levantou-se da fileira ao lado e aproximou-se dos três. Disse:
- Eu sei do que vocês estão falando. As aeromoças, não é? Há horas que eu chamo uma para pedir uma Coca-Cola e não aparece ninguém. Sabe o que eu acho? Acho que este avião está sem tripulação. Nós estamos voando sozinhos.
A moça da janela levou a mão à boca.
- E por cima da Mauritânia!
Como podia ser aquilo? Que fim levou a tripulação? Os homens decidiram ir até a cabine de comando. A moça ficou na sua poltrona, aterrorizada. Lá embaixo, a Mauritânia. E mais Mauritânia. Nada a não ser um deserto sem fim. Que podia nem ser a Mauritânia.
Os homens voltaram. Seus rostos diziam tudo. A moça perguntou:
- E então?
A cabine de comando estava vazia. Ninguém estava pilotando o avião. Não sabiam em que rota estavam ou que destino os esperava. Não havia nem uma revista de bordo para dar uma pista. Quando o combustível acabasse, cairiam. No deserto.
- Ou estão todos num compartimento secreto, na maior farra... – disse o homem do meio – ou...
- Ou o quê? – perguntou a moça.
- Ou é melhor começar a rezar para que isto seja uma metáfora.
Domingo, 5 de novembro de 2006.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.