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Mandarim

Cláudio Moreno

O IDIOMA NÃO TEM a menor chance de substituir o Inglês como língua franca do planeta

"Nosso professor de Comércio Exterior mostrou uma reportagem que saiu sobre o Mandarim, hoje o idioma mais falado no mundo. Segundo ele, devido à crescente importância da China no cenário econômico e político mundial, esta língua passará a ser tão importante para as relações internacionais como foi o Inglês até hoje. Não é exagero dele?".

Ele está exagerando meu amigo - e muito! O domínio deste idioma favorece as relações internacionais? Com a China, sim - com toda a certeza. Dentre os brasileiros que fazem negócios com aquele país, quem conhecer um pouco de Mandarim terá mais facilidade de angariar a simpatia dos chineses - que, como todos os povos do mundo, veem com boa vontade qualquer estrangeiro que se esforce em falar a língua local. Agora, apesar de fascinante, o Mandarim não tem a menor chance de substituir o Inglês como a língua franca do planeta, por razões que ficam evidentes quando examinamos suas características.

Em primeiro lugar, é uma língua tonal, enquanto a nossa e todas as demais línguas do Ocidente são atonais. Isso significa que o tom, no Mandarim, é muitas vezes o único traço que permite distinguir entre duas ou mais palavras que têm a mesma sequência de fonemas. No exemplo clássico a sílaba ma, dependendo do tom com que é pronunciada, pode significar "mãe", ou "cânhamo", ou "cavalo", ou ainda "reprimenda" Foi por esse mesmo motivo, aliás, que a espionagem mundial descobriu que a leitura labial é quase inútil para acompanhar, de longe, o que um chinês está falando. Os estrangeiros levam anos para distinguir perfeitamente os tons que ouvem - e muitos outros para conseguir pronunciá-los corretamente. Repito: anos! Muitos!

Em segundo lugar, não é uma língua alfabética como a nossa, que usa um conjunto fixo de letras para representar todos os vocábulos possíveis; cada caractere chinês é a representação pictográfica de uma palavra, traçada dentro dos limites de um quadradinho virtual. Haveria mais de 60 mil desses caracteres, embora muitos assegurem que um leitor está perfeitamente instrumentado se souber por volta de 5 mil (ou 2 mil, ou 1,5 mil - as cifras variam de autor para autor, mas todos eles ficam acima dos quatro dígitos!).

Para tornar tudo ainda mais complexo, esses caracteres são inclassificáveis - não podem ser ordenados, como nos sistemas alfabéticos, seguindo um padrão facilmente depreendido por todos os usuários. Vários modos de organização lexicográfica já foram testados, mas em todos eles procurar uma palavra no dicionário é uma verdadeira odisseia. Assim como aqui os jovens participam de torneios de soletração, lá são comuns os concursos para ver quem chega mais rápido ao vocábulo procurado! Como vês, as diferenças são tantas - e tão profundas! - que a previsão do teu professor nunca se realizará.

E já que estamos nesta charla, aproveito para convidar os amigos para minha palestra na terça-feira, dia 28 de abril, às 19h30min, no Instituto Ling, sobre o tema A Grécia na Obra de Monteiro Lobato (informações pelo fone 3533-5700 ou no site www.institutoling.org.br.


Sábado, 11 de abril de 2015.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.