Gravando
Luis Fernando Verissimo
Alguém já deve ter tido a ideia de fazer um filme contando a história de um personagem através de imagens captadas ao longo da sua vida, do parto - gravado pelo pai - à morte num acidente de trânsito gravado por uma câmera de rua, ou num assalto gravado pelo circuito interno de uma loja. Toda uma vida registrada em tape. Cenas da festa do seu primeiro aniversário. Seus primeiros passos. Suas primeiras palavras (“Diz ‘alô vovô’ para a câmera, diz!”). Sua participação numa peça da escola (“Eu sou o de barba”). Sua formatura, com a imagem balançando por que a mãe não sabia usar a câmera. Cenas de um veraneio com a família numa praia do Espírito Santo que inclui a tia Julinha fazendo sua imitação das bailarinas do É o Tchan! e todo mundo comendo milho e acabando numa guerra de espigas. A fita com sua declaração de amor eterno para a namorada que ela não pôde ouvir porque o som estava ruim e quando ele consertou o som o namoro já tinha terminado. Toda uma vida.
Inclusive o que foi gravado sem ele saber. Sozinho dentro de um elevador, fazendo caretas para o espelho, depois olhando-se de perfil e encolhendo a barriga. No almoxarifado da loja em que trabalhou por um período, no maior amasso com a dona Solange da contabilidade. Num balcão de bar, olhando em volta antes de pegar o biscoito que alguém do seu lado deixou no pires do cafezinho. Numa loja de moda masculina, experimentando o terno que usaria na entrevista que seu tio Felício arranjou, para ele trabalhar no gabinete de um politico. Sua pequena dança de satisfação no lado de fora do gabinete do politico, depois de conseguir o emprego. Tudo captado pelas câmeras.
No tape da festa de despedida gravada por um amigo na véspera da sua viagem a Brasília com o político, que se elegeu deputado federal, ele faz um discurso emocionado, prometendo que ajudará a representar seu Estado com muito trabalho e muita honestidade, antes de tentar dar um beijo na câmera e cair de cara no chão, completamente bêbado. Há um tape da sua partida para Brasília com cara de ressaca. Há tapes dele em trânsito nos corredores do Congresso e atrás do deputado em entrevistas, e ao seu lado na solenidade em que o deputado é empossado no cargo de ministro. Como chefe de gabinete do ministro, ele chegou ao ápice da sua carreira, ao ponto mais alto da sua história. E está tudo registrado.
A diferença entre, por exemplo, as imagens do seu parto e as imagens dele recebendo maços de dinheiro de propina, feitas por uma minicâmera escondida, seria notável. Com os avanços havidos nas câmeras eletrônicas, que hoje podem ser montadas, literalmente, em qualquer lugar, a qualidade das imagens se aproxima da perfeição, mesmo que as câmeras tenham o tamanho de botões de lapela. As cenas finais do nosso filme hipotético seriam de grande nitidez e impacto, mostrando o personagem enchendo os bolsos de dinheiro, depois fechando os olhos para uma breve oração agradecida. O final do filme poderia ser nosso personagem morrendo num desastre de trânsito gravado por uma câmera de rua, ou num assalto, grava do pelo circuito interno de uma loja, ou gravando uma entrevista para a TV em que nega ter recebido propina, diz que tudo não passa de uma armação e que Deus estava lá e pode testemunhar. E entregando-se ao julgamento do tempo, que, no Brasil, como se sabe, perdoa tudo.
O fato é que hoje vivemos sob a fiscalização de câmeras nos lugares mais inesperados, gravando o que fazemos, e até quem não tem culpa se sente constrangido. Você eu não sei, mas eu não faço mais caretas para o espelho em elevador vazio.
Domingo, 13 de dezembro de 2009.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.