“Gostoço”
Luis Fernando Verissimo
“Sexo sem demagogia”. Era o que dizia o anúncio classificado de uma dessas moças que se oferecem no jornal para programas, massagens especiais ou telessexo. Não que eu estivesse procurando um desses serviços, era puro interesse antropológico. Mesmo porque os anúncios do gênero são geralmente dirigidos a executivos de fina trato, numa odiosa discriminação com assalariados de trato comum. Mas fiquei pensando que, fosse o que fosse sexo sem demagogia, talvez fosse o que o mundo está precisando. O nome da moça era Sabrina, mas não guardei o número.
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Aliás, uma vez telefonei sim para um desses números. Mas por encargo profissional: a revista Playboy tinha pedido para vários escritores ligarem para um serviço de telessexo e depois escreverem sobre a experiência. Não me lembro se a matéria chegou a ser aproveitada. Treinei uma voz de executivo de fina trato e liguei. A voz que me coube tinha um sotaque castelhano. Certamente notando de saída que não estava tratando com um atleta da palavra íntima, a moça nem perguntou qual era a minha fantasia sexual e foi logo dizendo que, não importava o que eu imaginava estar fazendo com ela, da parte dela estava “gostoço”. Foi a única reação que consegui da moça durante toda a conversa, “gostoço” em várias entonações, terminando num “gostooooooço” prolongado que, deduzi, significava que ou ela estava tendo um orgasmo ou o meu tempo estava acabando. De qualquer maneira, terminamos juntos. Eu não esperava demagogia, mas achei que tinha direito a pelo menos mais vocabulário. Meu relatório para a Playboy foi um tratado sobre o constrangimento.
MONOCULPADOS
Meu pai tinha um amigo espanhol, anticlerical como só um espanhol sabe ser, que culpava o papa por tudo. Via a influência sinistra do papa até em desastres naturais. Qualquer desgraça mundial ou local provocava nele a reação padrão que meu pai gostava de imitar, com sotaque espanhol e tudo: “É o papa”. O domínio fascista da Espanha franquista, da qual se exilara, era a base do seu antipapismo furioso, mas no fundo o amigo espanhol tinha o que nós todos queremos, um monoculpado. Um vilão universal para ser execrado e exorcizado e, acima de qualquer outro proveito, uma prática explicação para os males do mundo. Gostamos de personalizar o Mal para não termos que pensar muito sobre ele. As conspirações por trás de tudo – seja a dos sábios do Sião, dos maçons, dos cavaleiros teutônicos, dos comunistas, dos americanos ou de colônias de extraterrestres – poupam muito raciocínio. O Bin Laden serve como a personalização do Mal que vem do Oriente e de todos os terrores do fundamentalismo, mas fica difícil personalizar a conspiração de banqueiros internacionais também frequentemente culpada por tudo. Seria um jovem de 28 anos atrás do seu computador, criando e quebrando países inteiros por nada, por um Porsche novo. Insuficientemente sinistro. Temos a nostalgia do Dr. Fu Manchu, do Mal Absoluto com longas unhas por trás de tudo. Ou então de um daqueles papas bem bandidos.
Domingo, 26 de setembro de 2004.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.