GPS
Luis Fernando Verissimo
E tem aquela do cara que conversava com seu GPS. Instalara um GPS no carro porque precisava fazer viagens pelo interior do Estado, muitas vezes em território desconhecido, e o GPS lhe mostrava os caminhos a tomar. Mostrava e dizia, pois o GPS falava. Tinha uma voz feminina, um pouco autoritária, mas não desagradável.
– Em 700 metros, vire à direita, e logo em seguida à esquerda.
Quando o homem se enganava e não seguia suas instruções, a voz não perdia a calma. Dava novas instruções para corrigir o erro, pausadamente e sem fazer comentários. E o homem nunca deixava de se admirar com aquilo: de algum lugar do espaço, um satélite o seguia, e uma voz etérea – como? saindo de onde? – lhe dizia o que fazer, baseada na informação do satélite. E o satélite via tudo e nunca errava. Era como um deus em órbita estacionária da Terra.
Mas um dia o homem discordou do satélite. Depois de ouvir as instruções da voz, disse:
– Não mesmo.
E ouviu a voz dizer:
– O quê?
– Esta estrada eu conheço bem, e sua direção não está certa – disse o homem, antes de se dar conta de que a voz estava dialogando com ele. A voz estava dialogando com ele!
– Vai por mim – disse a voz.
E o homem, apavorado (“Devo estar ficando louco”, pensou), obedeceu e descobriu que o satélite tinha razão. O caminho indicado era mais curto do que o que ele conhecia. E quando chegaram ao destino desejado mais cedo, pelo atalho, a voz disse:
– Viu só?
O homem e a voz passaram a conversar. Ficaram íntimos. Agora a voz terminava cada instrução com um “querido”. E tornou-se confidente do homem, que lhe contava sua vida e pedia sua orientação. Era muito sozinho. Gostava de uma moça, mas ela ainda não sabia. Ele deveria declarar-se?
– Declare-se – mandou a voz.
– Será?
– Vai por mim.
Ele estava descontente no trabalho. Tinham lhe oferecido outro cargo, em que não precisaria viajar tanto. Deveria aceitar? Sim, disse a voz. Ele estava ficando estressado com tantas horas sozinho nas estradas.
Noutro dia, ele declarou que sua vida era uma porcaria e que ele não queria mais viver.
– Vire para a esquerda, agora! – ordenou a voz.
– Peraí. Se eu virar para a esquerda vou invadir a outra pista.
– E ser amassado por uma jamanta, certo. Não é isso que você quer?
Depois, a voz do GPS mandou:
– Daqui a 200 metros, vire para a direita.
– Onde nós estamos indo?
– Um hospital psiquiátrico que eu conheço. Esta nossa conversa é obviamente uma alucinação sua. Você precisa de tratamento.
– Você acha?
– Vai por mim.
Domingo, 21 de junho de 2015.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.