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Filmes

Luis Fernando Verissimo

Antigamente, pelo menos em Porto Alegre, os cinemas mostravam filmes "científicos" em sessões especiais a partir da meia-noite, aos sábados. "Científico" queria dizer que tratavam de sexo. Mas quem ia aos cinemas esperando ver na tela o que não podia ver em nenhum outro lugar, salvo eventuais revistas estrangeiras com fotos de mulher nua ou quadrinhos clandestinos de sacanagem nacionais, se decepcionava. Os filmes eram quase sempre sobre doenças venéreas, seu tratamento e suas terríveis consequências. Mas tinham o seu público. E, acredite ou não, sessões separadas para homens e mulheres.

Não sei o que pensavam que aconteceria se homens e mulheres se sentassem lado a lado para ver os tais filmes. Sexo grupal, certamente, não seria. O efeito mais provável das cenas mostradas era as pessoas renunciarem ao sexo para sempre. Mas havia a divisão. E pensei nela assistindo As Horas. Não que o filme lembre um daqueles documentários "científicos". É que me senti como um penetra numa sessão só para mulheres. Temendo ser identificado a qualquer momento como "um deles", um homem, e denunciado à gerência. As Horas não é um filme "para mulher" no sentido amplo de ser reflexivo e psicologicamente denso e não ter o Charles Bronson. Também é um filme para homens, só que numa plateia separada. Na presença de mulheres, não há como os homens não se considerarem intrusos, espiões, vendo coisas que não são para os seus olhos, rituais secretos de uma tribo que decididamente não é a sua. Os beijos na boca vistos no filme são de várias categorias de beijo na boca - desesperado, compreensivo, apaixonado - e são todos entre mulheres, um claro sinal de que não temos nada a contribuir a estas estranhas transações, nem compreensão. E na presença de mulheres os homens não podem chorar sem constrangimento. Pois eles têm muitas razões para chorar vendo As Horas. Os homens são os desgraçados do filme. Os maridos sofridos e pacientes de mulheres difíceis, os filhos emocionalmente marcados por toda a vida por mães complicadas, os coadjuvantes desprezados de dramas femininos que não lhes dizem respeito.

Numa sessão segregada, só para eles, os homens poderiam soluçar à vontade.

Eu tinha lido que Michael Caine era a única razão para ver O Americano Tranquilo. Não é. O trabalho de Caine como um típico herói de Graham Greene, um homem atrás da culpa que o salvará, é extraordinário, mas o filme não é ruim, e não tem nenhuma ambiguidade com relação ao papel dos americanos na degringolada que levou à Guerra do Vietnã, como se temia. O católico Greene não podia entrar nos Estados Unidos porque era considerado comunista, mas nunca foi inteiramente aceito como autor engajado, pela esquerda, porque o seu assunto era sempre a alma humana, ou o que há de mais individual e anti-político na gente. Mas nas suas buscas pela redenção ou pelo desencanto final ele observou o sangrento século 20 como poucos e em O Americano Tranquilo fez um dos seus livros mais políticos. Na sua autobiografia, Greene conta que se tivesse que escolher uma epígrafe para toda a sua obra seria um trecho de um poema de Robert Browning, "Nosso interesse está na margem perigosa das coisas, no ladrão honesto, no assassino terno, no ateu supersticioso... Observamos enquanto eles mantêm o equilíbrio do estonteante caminho do meio".

O estonteante caminho pelo meio das nossas contradições, que também passa pelo meio dos perigosos paradoxos da História, é o caminho escolhido por Greene. O filme não é tão bom quanto Michael Caine, mas, como ele, é grahamgreenesco de cima a baixo.

Se o filme Chicago fosse do Fosse, seria ótimo. Não apenas porque seria melhor do que esse mas porque, com Sweet Charity e Cabaret, dois outros musicais que ele dirigiu no teatro e depois no cinema, completaria uma simétrica trilogia da renovação do gênero by Bob Fosse. Ninguém antes dele tinha usado a câmera e a montagem como parte da coreografia, aproveitando a técnica do cinema um pouco como tinha explorado a expressividade do corpo humano, na dança, de formas nunca antes imaginadas. Ele fez dois outros filmes além de Charity e Cabaret: outro musical, All That Jazz, autobiográfico e bom, apesar de um pouco megalomaníaco demais, e Lenny, uma biografia do cômico Lenny Bruce, em preto-e-branco, com Dustin Hoffman, que precisa ser revisto porque provavelmente era melhor do que se pensava. Chicago é um filme de Bob Fosse sem o essencial, o próprio Bob Fosse, mas bem-vindo assim mesmo: porque continua o que ele começou, e simplesmente por ser um filme musical, que alguém já descreveu como a grande contribuição americana ao surrealismo, e que tinha desaparecido. Vale principalmente pelas poderosas coxas da Catherine Zeta-Jones.

Era compreensível que providenciassem um novo nariz para a Nicole Kidman, já que era inaceitável uma Virginia Woolf de nariz arrebitado. Mas se podiam fazer o nariz que quisessem, por que fizeram um nariz errado? Pelo que se vê nas fotografias a escritora tinha um nariz longo, mas reto, e o que deram para a atriz é aquilino. Ou adunco. Aquilino é como bico de águia, adunco é como o que mesmo? De qualquer jeito, está errado. Dizem os maldosos que o importante era que o nariz falso não desmanchasse na água. De qualquer jeito, por trás do nariz está a Nicole, o que torna qualquer crítica irrelevante.


Domingo, 16 de março de 2003.



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