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Extremofilia

Luis Fernando Verissimo

Descobriram que há organismos que nascem e crescem em lugares até pouco tempo considerados impossíveis para a vida, como em torno das ventas vulcânicas no fundo do mar. A descoberta aumentou a perspectiva de se encontrar vida em outros planetas, pois nenhum dos nossos conhecidos é tão inóspito que não admitiria algum tipo de bactéria se reproduzindo na sua superfície, ou nas suas profundezas. Esses organismos que sobrevivem nas condições mais inesperadas têm um nome: extremófilos. Eles amam os extremos para viver. Ou - o caso da Narinha - só se sentem realmente vivos perto dos extremos.

Havia, na turma, uma séria desconfiança de que a Narinha nascera numa rachadura do fundo do mar, e só respirara enxofre durante a infância. Isso explicava ela ter sobrevivido àquele seu amor pelos extremos que teria destruído qualquer outro organismo, que em qualquer outro organismo seria um sinal de vocação suicida. Na Narinha, não. A Narinha procurava os extremos, aproveitava intensamente os extremos e saía de cada novo encontro com um extremo rejuvenescida, pronta para um extremo maior.

Não se tinha notícia de um namorado da Narinha que não fosse no mínimo ou o dobro ou a metade da sua idade.

Uma vez a Narinha namorara um homem tão mais velho do que ela que o traíra com seu bisneto - na cama do próprio velho enquanto ele dormia, pois a Narinha também gostava de riscos extremos e, mesmo, tinha que estar por perto para lhe dar o remédio na hora certa.

Outra vez encontraram a Narinha com o namorado num restaurante e ela anunciou que era uma ocasião especial: estavam comemorando o nascimento do primeiro pêlo pubiano dele, o que significava que ele já podia tomar vinho. Mas o romance acabou quando a Narinha fugiu para Paris com a avó do rapaz, que fizera análise e descobrira que era lésbica, e que também foi abandonada quando a Narinha conheceu um estudante basco que planejava se atirar de paraquedas sobre a embaixada espanhola com dinamite no corpo e, claro, não pôde resisti-lo. Até conhecer um homem de 85 anos que a convidou para testar o pênis eletrônico que inventara em condições de gravidade zero, num jato em queda livre.

As convicções políticas da Narinha eram variáveis e quando queriam saber se ela era de extrema esquerda ou de extrema direita, ela costumava perguntar: "Que dia é hoje?".

Por tudo isso, todos estranharam quando a Narinha começou a sair com o Miro. O Miro era mais ou menos da sua idade. Nem muito mais velho nem muito mais moço. Funcionário público. Gostava de futebol, mas não era fanático por nenhum clube. Lia pouco. Seleções, alguns livros de autoajuda. Também não era muito de cinema. Lamentava que não aparecessem mais filmes do Charles Bronson. Bebia com moderação, gostava de dormir cedo e, em matéria de política, não tinha opinião formada. Votava em quem parecesse mais honesto. Sua filosofia era que, se todos no Brasil apenas fizessem o seu trabalho corretamente, como ele na repartição, este país tinha jeito sim. Pediram explicações à Narinha.

- Por que o Miro?

- Cansei - disse, simplesmente, a Narinha.

Era difícil de acreditar que a extremófila cansara dos extremos. A Narinha acomodada? A Narinha dormindo cedo? A Narinha concordando que a verdade está sempre no meio-termo, como gostava de dizer o Miro? A Narinha moderada?! Impossível. E começaram as especulações. O Miro seria um extremista disfarçado. Seu exterior de pão-de-ló esconderia um coração de Al Qaeda. Ou ele era alguma coisa extrema na cama, alguma coisa que a Narinha não encontrara em moços, velhos, lésbicas ou acessórios.

Mas não. Miro parecia ser exatamente o que parecia ser. Qual era a explicação? Não havia explicação racional. Até que um dia alguém notou a expressão no rosto da Narinha enquanto o Miro descrevia o novo método de arquivamento que inventara para o escritório. A adoração, quase o gozo, no rosto da Narinha. Era isso! Era a explicação.

- Vocês já notaram como o Miro é chato?

- É, coitado.

- Não, o Miro é muito chato. O Miro é extremamente chato.

E então todos se deram conta. A Narinha não mudara.

O Miro é, provavelmente, o homem mais chato do mundo!

Claro. Narinha sentira a necessidade de abandonar sua vida de loucuras e encontrar alguém normal. Mas uma extremófila irrecuperável não se contentaria com alguém apenas normal. Tinha que ser alguém radicalmente normal. Um chato até as últimas consequências.

E até hoje, quando o Miro diz coisas como "Eu, se não durmo minhas oito horas por noite, fico imprestável" a Narinha olha em volta, radiante, desafiando alguém da turma a produzir um chato mais chato do que o dela.


Domingo, 22 de setembro de 2002.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.