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Etiquette

Luis Fernando Verissimo

Com o dólar cada vez mais baixo e o brasileiro viajando cada vez mais para o exterior, seria bom reeditar um teipe supostamente preparado pela Embaixada Brasileira em Paris em 1998 dirigido aos torcedores brasileiros que chegavam para a Copa do Mundo na França. A orientação aos brasileiros era feita por um consultor francês chamado Jean-Paul Faisandé, que começava falando diretamente para a câmera.

Jean-Paul Faisandé - Torcedor brasileiro: attention. Não ouse chegar na Coup du Monde sem antes tomar lições de etiquette. É para isto que eu estou aqui. Para evitar que você envergonhe o seu país na França, comportando-se como um brasileiro. Primeira lição de etiquette: como entrar num bistrô parisiense. A cena que veremos a seguir, graças a Deus, é uma simulação.

Seguia-se uma cena do torcedor brasileiro, de bermuda e camiseta da seleção carregando um bumbo e uma bandeira do Brasil, acompanhado da sua mulher também de bermuda e camiseta, entrando num bistrô espalhafatosamente, escolhendo uma mesa e gritando para o francês atônito atrás do balcão:

Brasileiro - Ó, amizade. Baixa uma ceva, dois copos e uns quesquecê aí pra beliscá.

Faisandé (entrando na cena) - Arréte, arréte, arréte! Está tudo errado. Para começar, mude imediatamente de roupa.

A bermuda e a camiseta do brasileiro se transformavam em terno e gravata.

Faisandé - Livre-se desse bumbo ridículo.

O bumbo desaparecia.

Faisandé (depois de examinar a mulher e hesitar) - E desta mulher também.

Mulher (começando a protestar) - Espera um po...

A mulher desaparecia.

Faisandé - Essa bandeira... Não tem uma mais discreta?

Brasileiro (segurando a bandeira contra o peito) - Epa. A bandeira fica.

Faisandé (suspirando) - Está bem. Alors, num bistrô não se entra assim, à la façon de Miguelon. Você espera na entrada para ser recebido e levado à sua mesa. Vamos de novo.

O brasileiro entrava no bistrô e ficava esperando que o francês viesse recebê-lo, com Faisandé ao seu lado para instruí-lo. O francês não vinha.

Brasileiro - Ó, amizade!

Faisandé - Amitiê.

Brasileiro - O, amitiê! Gente boa!

Faisandé - Bon gens.

Brasileiro - Bonjã! Comandante!

Faisandé - Commandant!

Brasileiro - Commandant! Meu chapa!

Faisandé - Ma plaque!

Brasileiro - Ma plaque! Não adianta, ele não vem...

Faisandé - Espere. Civilização é saber esperar. Ele está vindo...

Brasileiro - Mas nessa velocidade? Ó lesma!

Faisandé - Escargot.

Brasileiro - Ó escargot!

Cortava para o brasileiro e Faisandé sentados à mesa do bistrô. O brasileiro olhando o prato de escargots à sua frente com cara de nojo.

Faisandé (para a câmera) - Segunda lição de etiquette: como comer num restaurante francês. Pediu escargot, tem que comer. Antes de mais nada, certifique-se que o escargot está pronto para ser comido. Se ele ainda estiver se mexendo, é porque não está pronto.

Brasileiro - Olha, tem um tentando fugir do prato.

Faisandé - Deixa ele ir. Espere dez minutos. Se os outros não o seguirem, pode começar a comer.

Brasileiro - Com que garfo?

Faisandé (mostrando) - Com este alfinete.

Brasileiro - Acho que vou pedir outra coisa.

Faisandé (resignado) - Trés bien. Peça o menu.

Brasileiro - Como se diz menu em francês?

Faisandé fazia o possível para se controlar.

Brasileiro (depois de receber o menu) - Está aqui o que eu quero. Uma boa carne. Este bife tartar deve ser bárbaro.

Quando vinha o prato era recebido com outra cara de nojo do brasileiro.

Brasileiro - O que é isto?!

Faisandé - Boeuf tartare. Carne crua picada.

O brasileiro desistia. Levantava-se, virando a mesa.

Brasileiro - Eu vou embora! Devolve o meu bumbo. E a minha mulher!

Faisandé - Monsieur!

Brasileiro - Eu quero meu bumbo e a minha mulher!


Domingo, 22 de julho de 2007.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.