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Entrevista

Martha Medeiros

Nada sobre livros ou os melhores momentos da carreira. A pergunta era sobre a minha última gargalhada. Quando foi mesmo?

Outro dia tive que responder a uma entrevista inusual. As perguntas nada tinham a ver com início de carreira, livros preferidos, fórmulas mágicas para vencer problemas. Ao contrário disso tudo, a enquete queria saber qual havia sida a última vez que eu havia gargalhado pra valer. Qual a última vez que eu havia quebrado uma promessa. Qual a última vez que eu havia sido surpreendida.

Bom, essa era fácil de responder: eu estava sendo surpreendida naquele exato instante. Não esperava ter que parar pra pensar em coisas desse tipo. A gente passa voando pelos dias, na tentativa de cumprir nossas metas, que não são poucas: trabalhar, trabalhar, trabalhar e, na sobrinha de tempo, fazer supermercado, se exercitar, ler os jornais. E aí vem alguém e pergunta qual a última vez que eu gargalhei pra valer? Foi quando eu estive com minhas amigas, num encontro de final de tarde. Já nem lembrava.

Qual a última vez que eu jantei sozinha? Qual a última vez que eu contribuí para caridade? Qual a última vez que eu dormi num hotel?

Eram perguntas triviais, e no entanto me vi forçada a me conectar com sensações de isolamento, generosidade, tristeza, cansaço, euforia. Em vez de falar de coisas práticas e ideias prontas, eu estava fazendo um inventário das emoções mais corriqueiras do dia-a-dia. Se a gente esquece de reaviva-las, viramos apenas uma máquina humana cumpridora de tarefas.

Qual a última vez que apertei a mão de alguém? Qual a última vez que eu fiquei furiosa? Qual a última vez que eu menti?

Parece fácil, mas as respostas não saem de imediato. É preciso resgatar momentos que a gente mal registrou, que não pareciam importantes porque não estavam anotados na agenda. Para responder esse tipo de pergunta, é preciso estar tão atento aos coffeebreaks quanto às palestras, dar tanta atenção às mãos entrelaçadas no cinema quanto ao filme na tela. É nestes breves interlúdios que a vida acontece e a gente se revela pra si mesmo. É nestes poucos segundos que a alma aflora: quando você é apresentado a uma pessoa e aperta firme sua mão, quando mentem pra você e você fica furiosa, ou quando seu filho pergunta se nunca vai acontecer nada de mal com ele e quem mente é você.

Qual a última vez que você dormiu demais? Qual a última vez que você beijou alguém? Qual a última vez que você foi injusto?

Parecia o juízo final. Mas era só uma entrevista que me fez trazer de volta o que realmente interessa.


Domingo, 4 de julho de 2004.



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