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Emoções

Luis Fernando Verissimo

A Maria Helena engravidou, era o primeiro filho e ela ficou muito emotiva. O Raul descobriu isso um dia quando entrou na cozinha e a encontrou sentada na frente de uma torrada, chorando. Levou um susto:

- O que foi?!

A Maria Helena nem podia falar.

- Que foi, Maria Helena? Tá sentindo alguma coisa?

A Maria Helena soluçava. Sacudiu a cabeça. Apontou para a torrada e conseguiu dizer:

- Essa torrada!

- O que tem a torrada?

Ela estava começando a se controlar.

- Não tem nada. É que eu vi a torrada, assim, no prato...

E Maria Helena caiu de novo num choro convulsivo. Só muito depois pôde explicar que a torrada, daquele jeito, a deixara comovida.

- Que jeito, Maria Helena?

- Assim, no prato. Sozinha. Com as bordas queimadas. Coitadinha. Sei lá, eu...

O choro não deixou Maria Helena terminar.

No outro dia foi uma nuvem. Maria Helena chamou o marido para ver pela janela. Uma nuvenzinha cor-de-rosa, no fim do dia.

Tão... tão... E o Raul teve que amparar a mulher, que chorava de ganir contra o seu peito.

Passou todo mundo a esperar as crises emotivas da Maria Helena. O Raul telefonava para os amigos. Contava:

- Desta vez foi aquele comercial da TV. Dos detergentes. Ela ficou com pena do que não lavava tão branco. Chorou a noite inteira!

Mas o cúmulo foi quando, numa reunião, o Almir mostrou o celular novo que tinha comprado, um pequeninho que cabia no bolso da camisa. A Maria Helena não aguentou. Tiveram que trazer água para acalmá-la. Ela repetia “Que coisa mais querida, que coisa mais querida”. E o pior é que sua emoção era contagiante. Já tinha mais gente com lágrimas nos olhos, enternecida, sem saber por que, com o celularzinho do Almir. A reunião acabou.

O Raul não vê o dia de o bebê nascer.


O outro lado

O vizinho batia na mulher. Ouvia-se tudo do outro lado. Paft, peft, e os gritos da mulher. “Seu bruto! Seu animal!” Geralmente à noite, na hora da novela. A Alice dizia:

- Não é possível. Esse homem é um psicopata!

E o Alfredo:

- Anrrã.

Uma noite a Alice perdeu a paciência. Aquilo não podia continuar.

Alguma coisa tinha que ser feita. Ainda por cima atrapalhava a novela.

- Vai lá, Alfredo.

- Eu? Mas eu mal conheço o vizinho!

- Não interessa. Vai lá e diz que, se ele não parar, nós vamos chamar a polícia.

O Alfredo foi, e custou a voltar. Quinze minutos, meia hora. Depois de quarenta minutos, a Alice ouviu de novo: paft, peft, paft, peft. E os gritos da mulher:

- Covarde! Covarde!

Quando o Alfredo voltou, a Alice estava de olhos arregalados.

- O que aconteceu, Alfredo?

- Tive uma conversa com o vizinho. Muito esclarecedora.

- E ele bateu na mulher dele na sua frente?

- Não. Eu bati.

- Alfredo!

E o Alfredo ponderou que é sempre bom ouvir todos os lados antes de julgar alguém.


Domingo, 1º de outubro de 2006.



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