Desencontro
Luis Fernando Verissimo
Num texto sobre Beethoven, escrito um pouco antes da sua morte, o crítico Edward Said reflete sobre o desencontro que algumas vezes acontece entre a pretensão do artista e a expectativa do seu público. O público quer que o artista admirado produza o que sempre produziu e o que o fez ser admirado. O artista pode querer fugir do que esperam dele e explorar os extremos da sua arte, exercendo a sua criatividade além dos limites da compreensão ou do sucesso. Artista e público também podem discordar sobre o efeito que o tempo tem, ou deve ter, na arte. Satisfaz ao público a ideia da obra tardia como uma espécie de suma reflexiva da obra toda, um legado da sabedoria acumulada – e Said cita o Shakespeare de A Tempestade e o Sófocles de Édipo em Colona como exemplos – que nos transmite em cálido sentimento de simetria, além de aceitação da finitude humana. Já o artista pode ver o seu fim próximo não como motivo para auto-elegias e testamentos morais mas para rebeldia e desespero.
Beethoven é um exemplo de como público e artista divergem nas suas expectativas e pretensões. Sua obra tardia não foi a presumida apoteose do estilo triunfante, que Said chama de “romantismo heroico”, que fez dele o principal compositor do seu século, mas uma música que público e críticos perplexos chamaram de excêntrica e desagradável. O extrovertido de transformara num introvertido cujas composições exigiam um esforço sem precedentes de intérpretes e ouvintes. Se hoje ouvem-se os quartetos para cordas de Beethoven como os espantosos precursores diretos dos quartetos angulosos e atonais do Bela Bartok, pode-se imaginar como eles soavam para ouvintes da época. Eram o produto de uma mente independente, de um artista empenhado em seguir os desafios da sua arte mesmo com o risco de perder a afeição do seu meio, e de um velho decididamente não resignado à morte.
A arte final de Beethoven estava além do seu tempo mas também foi assincrônica no outro sentido, aquém do seu tempo, na busca de um rigor formal anterior ao classicismo e ao romantismo. Outros artistas que surpreenderam o seu tempo, como Stravinsky na música e Eliot e Joyce na literatura, também buscaram sua originalidade em mitos, rituais e forma antigas. Postaram-se fora do seu tempo pela experimentação com o seu instrumento quanto pela referência a arquétipos esquecidos. A modernidade é sempre filha de uma complicação dos meios com uma simplificação ou redução de temas e sempre nasce em meio a incompreensão e vaias. Beethoven foi contra o seu público e complicou a sua música para que ela expressasse o básico e, assim, significasse ao mesmo tempo o fim de um estilo e uma volta introspectiva ao seu fundamento, à sua gênese anti-sentimental e pagã.
E pode não ter sido uma revolta consciente, mas apenas outro exemplo de um artista impelido pelo seu próprio gênio ou pelo seu desespero pessoal para além do previsível e do convencional. Não uma forma de narcisismo, mas uma forma de danação. Como a de Goya, outro sucesso de público (e outro atormentado por problemas pessoais), o pintor favorito das frivolidades da corte espanhola que acabou, literalmente, fazendo suas terríveis pinturas negras para ninguém ver. São casos de artistas que experimentam e revolucionam, porque não podem fazer outra coisa, não por opção ou por birra intelectual. Não dá para especular o que Joyce faria depois de Finnegans Wake. Talvez, depois de levar a linguagem literária ao seu último limite concebível, tenha feito a única coisa adequada: parar e morrer, ou morrer e parar.
E, no fim, nenhum artista tem muita consciência do que faz ou do que representa. Você pode ter certeza que Kafka nunca olhou o papel em branco à sua frente, pensou “Vou escrever o necrológio definitivo do império austro-húngaro”, e começou a sua obra. Que ele pediu para ser destruída, antes de ser lida e incompreendida.
Domingo, 29 de fevereiro de 2004.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.