Debalde
Cláudio Moreno
A CONFUSÃO NASCE do fato de nosso vocabulário apresentar dois baldes de origem diferente
Embora eu tente ser o mais democrático possível, nesta coluna têm preferência as dúvidas enviadas por professores e crianças - não necessariamente nesta ordem. Os colegas, porque são meus irmãos de armas, lutando, como eu, para transmitir o legado de nosso belo idioma; as crianças, porque sinto, quando me aparece um desses consulentes mirins, que ali está uma plantinha que só precisa de um pouco de sol para se tornar boa árvore. Hoje a preferência coube à menina Bruna, uma ex-colega de minha filha que se mudou para o Paraná. "Me perguntaram na escola se eu estaria de balde no sábado. Minha mãe disse que é tipo não fazer nada, mas me mandou conferir no dicionário. Aí piorou; em balde tem muita coisa, mas uma não faz sentido com a outra. Pode me explicar, tio?".
Posso sim - mas não é muito simples, como vais ver. A confusão nasce do fato de nosso vocabulário apresentar dois baldes de origem diferente, formando cada um deles a sua própria família de derivados. Vamos começar pelo balde que usamos na limpeza da casa. Dizem uns que veio do Latim, mas, por enquanto, isso não passa de um bom palpite. Deste balde saiu o verbo baldear (e seu derivado baldeação), que já deves ter visto nos seus dois sentidos modernos: (1) transferir carga ou passageiros de uma embarcação ou trem para outro e (2) lavar o chão com baldes de água. No primeiro sentido: "Vamos baldear para o noturno em Santa Maria, disse Rodrigo" (Érico Veríssimo); "Um chato da companhia aérea implicou com ele na baldeação em B. Horizonte" (Rubem Braga). No segundo: "Abriu toda a casa e correu a buscar água para baldear o chão" (Aluísio Azevedo); "Se não viessem fazer baldeação, dentro em pouco não teríamos um pedaço de tábua limpa" (Graciliano Ramos).
O outro balde vem do árabe e significa "inútil, defeituoso, falho". A família dele é bem mais impressionante. Daí saiu o conhecidíssimo baldio ("sem uso") e o esquisito baldo ("vazio, desprovido'), usado assim: "Baldo de recursos e a braços com toda espécie de dificuldade” (Euclides da Cunha). Aliás, vais reconhecer este adjetivo como um dos elementos que compõem o nome do jagunço Riobaldo quando vocês estudarem a obra de Guimarães Rosa. Ligado à ideia de "defeito", nasce aqui também a balda, "mania, defeito habitual" - muito usado com relação a animais de montaria. João Simões Lopes Neto, nos Casos do Romualdo, fala de uma mania do cavalo do narrador: "Mas o Gemada tinha uma balda; a não ser comigo, não havia quem o obrigasse a passar um rio, em balsa".
Por fim - ufa, chegamos! -, daqui sai baldado ("em vão, sem êxito"): "No fim de dois meses de espera baldada" (Machado); "Eram baldados os esforços que fazia Chiru para estimular os convivas" (E. Veríssimo). Este sim é parente próximo do teu debalde (pode-se escrever separado, mas esta é a forma preferida), que significa "em vão; à toa": “Mas esperarás debalde: duas metades de cavalo não fazem um cavalo" (Machado). Queriam saber se estarias à toa no sábado; era isso. Vais ouvir por aí (como na serra gaúcha, aliás) formas distorcidas como devarde ou devalde; fica longe delas, por favor.
Sábado, 9 de maio de 2015.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.