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Contrafernização

Luis Fernando Verissimo

- Dr. Anselmo, eu...

- Não me chame de doutor. Anselmo, Anselmo.

- Anselmo, eu...

- Tocão.

- Como?

- Meu apelido. Tocão. Me chame de Tocão.

- Tocão.

- Isso. E o seu, qual é?

- O meu...?

- Apelido.

- Bom, em casa me chamam de Di.

- Di! Maravilha. Viu só? Passamos o ano inteiro trabalhando juntos, nos tratando de doutor Anselmo e dona Dinoná, e só agora nos conhecemos de verdade. Sabe o que eu acho, dona Dinorá? Di? Que o apelido é o nome da alma. Sabendo o apelido de uma pessoa se conhece a sua alma. Tome mais champanhe.

- Não, obrigada. Vou parar. Já bebi demais.

- Tome! Sou eu que estou pagando. Eu não, a firma, mas fui eu que autorizei. Pedi do melhor. Foi um ano bom para a firma, vamos comemorar com o melhor. O melhor para todo o mundo. Sabe, Bi?

- Di.

- Hein?

- Doutor Anselmo, Tocão, acho melhor o senhor também parar...

- Eu sei, eu sei. Já estou meio alto. Mas hoje é um dia especial. Um dia de festa. De contrafernização.

- Confraternização.

- Isso também. E sabe o que eu acho, Si? Essa história. Nossos nomes. Doutor, dona, senhor pra cá, senhora pra lá... Sabe o que é isso? Não é formalidade. Não é respeito. É medo. É uma barreira que construímos em torno da nossa alma, para ninguém ver lá dentro. Nosso nome verdadeiro é o apelido. O meu, por exemplo. Sabendo que eu me chamo Tocão, você não sabe tudo a meu respeito? Não sabe exatamente como eu era, na infância? Como eu sou hoje? Lá dentro?

- É...

- Eu sou gente, Si.

- Di.

- Pois é. E sabendo o seu apelido, eu sinto que sei tudo sobre você. De agora em diante, vamos nos chamar pelos apelidos. Todo o mundo na firma. Sem medo. Não vai mais haver patrões nem empregados. Nem doutores nem donas. De agora em diante, me chamem todos de Tocão.

- Certo.

- Porque eu sou um Tocão. Entendeu, Si? O Dr. Anselmo é um disfarce. O que eu sou mesmo é um Tocão. Me chame de Tocão.

- Tocão.

- Beba mais champanhe.

- Não, não, eu já...

- Si, escute. Eu quero lhe mostrar o meu umbigo.

- O que é isso, dr. Anselmo?

- Não, eu faço questão. Vou lhe mostrar o meu umbigo.

- Não precisa, dr. Anselmo.

- Eu quero lhe mostrar o meu umbigo. Afinal, a senhora me mostrou o seu.

- É a moda. Umbigo de fora. É a moda. Eu não tinha intenção...

- Eu sei. Mas eu ainda não tinha visto o seu umbigo, Si. Ou, pelo menos, não tinha prestado atenção nele. E hoje prestei. Foi por isso que eu quis ter esta conversa. O seu umbigo foi uma espécie de convite para a intimidade. Um convite para vencer o medo, para romper as barreiras e nos revelarmos um ao outro. Para nos conhecermos como gente. Pelos nossos apelidos, nossos nomes verdadeiros, não nossos nomes oficiais. Por favor, segure o meu copo.

- Dr. Anselmo...

- Preciso abrir a camisa.

- Eu preferia que o senhor não...

- Onde está ele? Eu sei que tenho um umbigo. Ou será que deixei em casa? Arrá! Aqui está ele. Lhe apresento. O meu umbigo.

- Muito prazer.

- Você não está olhando.

- Estou, estou.

- O que você acha dele?

- Muito simpático.

- Vamos aproximar nossos umbigos, Si.

- Não! Por favor, dr. Anselmo...

- Tocão.

- Por favor, Tocão.

- Para nossos umbigos contrafernizarem! Eles são a prova da nossa humanidade comum, Si. Eles vão selar o início de uma nova era dentro da firma, talvez o início de uma nova era para o mundo. Deixe meu umbigo tocar o seu, Si. Si, onde você vai? Si!

- O senhor precisa de alguma coisa, dr. Anselmo?

- Obrigado, dona Márcia. Só preciso de outro copo. E não me chame de doutor. Olha aí, gente. Contrafernização. Contrafernização!


Domingo, 19 de dezembro de 2004.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.