Contato
Luis Fernando Verissimo
Começou com o equivalente de mensagens de fumaça. Um sinal distante. Alguém que soubera por alguém que ele tinha um estojo antigo de caligrafia que queria vender e mandara dizer que estava interessada. Ele autorizara o intermediário a lhe dar seu telefone. E ela telefonara.
Uma voz agradável. Uma voz moça. O que mais se pode dizer de alguém só pela voz e o jeito de falar? A voz de uma moça educada, pronto. Tudo o resto – rosto, corpo, história, casada, solteira, manicure – ele só podia adivinhar. Ela disse seu nome, Cristina. Ele disse o seu, Cláudio. Quase disse “Caco” mas achou que não cabia o apelido. Aquilo seria apenas um contato comercial. Ou não seria nada.
Ela quis saber como era o estojo. Ele descreveu. Uma caixa de madeira, forrada de veludo grená. Uma haste de prata, ou pelo menos banhada em prata. Seis bicos de pena de tamanhos diferentes. Um receptáculo para a tinta. Ela disse “Sei...” e ficou em silêncio. Ele achou que devia dizer mais alguma coisa e contou que o estojo estava na família havia muito tempo. Que fora com aquela pena que seu bisavô, ou tataravô, ele não sabia bem, escrevera as cartas que tinham convencido sua bisa, ou tátara, vó a vir da Europa e casar com ele. “Sei...” disse ela. “Se não fosse por este estojo eu não estaria aqui”, brincou ele. Ela deu uma risada. Ele pensou: ai. Eu poderia me apaixonar por uma risada assim.
Ela disse que precisaria ver o estojo. Ele disse claro, claro. Quando ela quisesse. Poderiam se encontrar em qualquer lugar ou, se ela preferisse, poderia vir na casa dele e... Ela o interrompeu. “Você não pode me mandar uma foto?” Ele argumentou que só com a foto ela não teria uma ideia precisa do estojo, da qualidade da madeira, da textura do veludo. Pensou, mas não disse, que seu bisa, ou tátara, vô provavelmente usara o mesmo argumento para dizer que só um retrato da pretendida não bastava, que ele precisava tê-la perto, cheirar seus cabelos... Pensou, mas não disse, que só uma voz e uma risada não bastavam, que precisava sentir sua textura. Disse: “Uma foto?” E ela: “É, você não tem uma câmara?” Ele: “Tenho”. Ela “Então me mande a foto”.
Ele concordou e pediu para ela lhe dar seu endereço. Levaria a foto em mão, seria um pretexto para conhece-la. Ela deu outra risada e perguntou: “Sua câmara não é digital?”. Quando ele disse que era, ela disse: “Pois então mande para o meu computador”. Certo, disse ele. Certo, certo. “Você sabe como se faz, Cláudio?”. Ele respondeu que claro que sabia. Mandaria a foto direto da sua câmara último tipo para o computador dela. Ou mandaria fazer uma cópia ampliada, escanearia e mandaria para o computador. Tinha escâner também. Assim os detalhes apareceriam mais nitidamente. Inclusive a textura. Ficou combinado. Ela lhe deu seu e-mail e garantiu que daria uma resposta em seguida. Fariam o negócio. Ou não. Você tem celular? Tenho, disse Cláudio, desanimado. Tenho tudo.
Ela disse “tchau” mas ele ainda tentou prolongar o único contato humano, mesmo distante, que jamais teriam. Só queria ouvir a sua voz mais um pouco. Perguntou por que ela queria o estojo de caligrafia. Iria usar a pena? Talvez pudessem até começar uma correspondência... Ela disse que não era para ela, que vendia antiguidades e tinha um cliente interessado num estojo como aquele. Usar a pena? Deus me livre. Acho que nem sei mais escrever a mão. Um abraço, Cláudio.
Pode me chamar de Ca... – começou a dizer ele.
Mas ela já tinha desligado.
Domingo, 30 de julho de 2006.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.